Confesso que, enquanto cidadão da União Europeia, vivo triplamente preocupado. E de onde decorre essa preocupação em três frentes, perguntar-se-á? ?
Pois bem:
Por um lado, dizem-nos que os russos – como se não lhes bastasse já o imenso território de que dispõem e que até têm dificuldade em povoar, tanto assim que já se viram, em tempos, obrigados a vender o Alasca aos americanos —, representam uma ameaça iminente à União Europeia, podendo, nomeadamente, chegar a Belém e apropriarem-se da nossa verdadeira joia estratégica: os pastéis. Ainda que arriscando uma queimadura na língua, porque um pastel acabado de sair do forno não distingue invasores de patriotas.
Por outro lado, temos os incêndios que, verão após verão, transformam vastas áreas da Europa num imenso braseiro. E estes, ao contrário das invasões imaginadas, não precisam de mapas nem de blindados para causar estragos.

Jurista
É esta a origem da minha tripla preocupação: a guerra que nos anunciam, a guerra que todos os verões já conhecemos e a guerra permanente contra o bom senso
É então que surge a minha dúvida existencial. Como vamos encontrar meios financeiros e humanos para travar estas duas guerras em simultâneo, sobretudo numa época em que o preço dos combustíveis sobe com mais entusiasmo do que qualquer índice de confiança económica?
No caso particular de Portugal, a questão assume contornos quase épicos. Como conseguiremos ter homens e mulheres suficientes para combater, ao mesmo tempo, um grande incêndio na Serra da Estrela e uma hipotética ofensiva russa na Serra do Caldeirão? Será que os bombeiros passam a fazer serviço em regime de dupla especialidade? De manhã apagam fogos; à tarde conduzem carros de combate? Ou haverá uma aplicação que indique: “Incêndio florestal a 5 km. Invasão militar a 12 km. Escolha a prioridade”?
E quanto às compras públicas? Quanto nos custará, para tais guerras, adquirir aviões-cisterna à China e mísseis aos Estados Unidos? Ou, para simplificar a burocracia, pedimos um pacote promocional: “na compra de um sistema antiaéreo, oferta de dois helicópteros de combate aos incêndios”?
Depois há um pequeno detalhe que parece escapar a muitos especialistas: o ambiente. Passamos o ano inteiro a discutir emissões de carbono, neutralidade climática, transição energética, tampinhas presas às garrafas e palhinhas de papel. Mas, aparentemente, quando entram em cena milhares de tanques, aviões, navios de guerra, explosões e incêndios o dióxido de carbono ganha um estatuto diplomático e deixa de contar para as estatísticas.
Talvez exista uma nova unidade de medida ambiental: uma tonelada de CO₂ emitida por um automóvel é um escândalo; a mesma tonelada libertada por um míssil é um imperativo estratégico.
No fundo, é esta a origem da minha tripla preocupação: a guerra que nos anunciam, a guerra que todos os verões já conhecemos e a guerra permanente contra o bom senso.
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