Sobre matéria que diversas vezes já temos abordado, não sendo, contudo, nunca de mais voltar a ela: os julgamentos na praça pública, com todo o efeito devastador provocado nas suas vítimas, que veem a sua vida devassada, reputação manchada e sofrendo traumas capazes de poderem marcar para sempre o seu percurso de vida, mesmo que, depois, em local próprio, num Tribunal, se vejam absolvidas de todos os males que lhes eram imputados.
Desta vez, a propósito do seu reflexo no, vulgarmente, designado mundo da política:
Com julgamentos assim, quem, com valores e integridade, deseja entrar em tal mundo? Quem quer arriscar a sua reputação, a sua vida pessoal e a sua saúde mental numa arena onde o mais pequeno erro ou a mais leve suspeita podem destruir tudo? Como estranhar que pessoas capazes, com vontade de servir o país, se afastem, contudo, da política, preferindo manter-se à margem dela, para não terem de enfrentar o julgamento público e a condenação mediática?

Jurista
Não será fundamental repensar a forma como encaramos os julgamentos na praça pública, em vez de os alimentar?
Não será reflexo desse afastamento, da falta de alternativas credíveis daí decorrentes, ver-se, cada vez mais, figuras a subir ao poder a quem, contudo, não se reconhece qualquer base sólida de mérito ou de integridade para isso? O olhar-se para uma Assembleia da República e serem confrangedores, não raro, os «debates» a que ali se assiste, com a ética, o respeito e a apresentação de soluções para os verdadeiros problemas do país a cederem lugar à politiquice e ao ataque pessoal?
Uma sociedade que julga e condena antes de apurar os factos, que alimenta suspeitas, não estará a criar um ambiente onde a política se torna um espaço de desconfiança, de medo e de desmotivação, com aqueles que, realmente, poderiam fazer a diferença a ficarem à margem para evitar o desgaste e o sofrimento?
Por isso, não será fundamental repensar a forma como encaramos os julgamentos na praça pública, em vez de os alimentar? De promover uma cultura de respeito, de responsabilidade e de justiça, onde a presunção de inocência seja garantida?
Não será que só assim conseguiremos criar um ambiente onde pessoas capazes e honestas se sintam motivadas a servir o país, sem medo de serem destruídas por uma praça pública que, muitas vezes, mais parece uma arena de caça do que um espaço de diálogo e construção?
Ficam as perguntas à consciência de cada um.
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