Num regime democrático representativo, a imprensa tem uma missão clara: atuar como vigilante independente dos poderes instituídos. Cabe-lhe assegurar que os cidadãos tenham acesso a informação verdadeira, rigorosa e plural sobre o funcionamento das instituições. Esse papel é, ou deveria ser, essencial ao bom funcionamento da democracia.
Contudo, nos últimos anos, temos assistido a um desvio preocupante dessa função. Uma parte significativa da grande imprensa tem-se afastado do seu papel fiscalizador para se tornar, por vezes, agente ativo em disputas de poder — ao serviço de interesses económicos, ideológicos ou partidários. A cobertura mediática de alguns processos judiciais em Portugal, como o caso Sócrates, revela tendências de julgamento antecipado que colocam em causa os princípios do Estado de direito.

Jurista
É tempo de resgatar o verdadeiro papel da imprensa numa democracia: ser voz crítica e não juiz; ser fiscal do poder e não seu instrumento; ser espaço de pluralismo e não de propaganda
O fenómeno do julgamento na praça pública tornou-se recorrente. A busca incessante por audiência — hoje amplificada por algoritmos e redes sociais — empurra muitos órgãos para o sensacionalismo. O escândalo rende mais cliques do que a precisão. A lógica do imediatismo sobrepõe-se à da verificação. Em consequência, o jornalismo deixa, muitas vezes, de informar para entreter ou condenar, sacrificando a responsabilidade no altar da visibilidade.
Este cenário é agravado pela concentração da propriedade dos media em grandes grupos económicos. Quando os meios de comunicação pertencem a entidades com interesses próprios no jogo político e financeiro, é legítimo questionar a sua imparcialidade. Em vez de servir o interesse público, a informação passa a ser moldada conforme conveniências. É aqui que a imprensa se perverte, transformando-se num instrumento de poder e manipulação.
Não se trata de negar a importância vital da imprensa livre — antes pelo contrário. Um jornalismo livre, crítico e plural é um pilar de qualquer sociedade democrática. Mas liberdade de imprensa não pode ser confundida com impunidade mediática. É urgente restabelecer as fronteiras entre vigilância e militância, entre liberdade e responsabilidade, entre informação e espetáculo.
É importante também reconhecer que nem toda a imprensa segue esse caminho. Existem exemplos meritórios de jornalismo de investigação isento, de projetos de fact-checking, de plataformas colaborativas que resistem à lógica da velocidade e reafirmam o compromisso com a verdade. Mas são ainda minoritários, muitas vezes financeiramente frágeis, e ofuscados pelo ruído das grandes máquinas de produção de conteúdo.
A confiança do público nos media está em queda — e não sem motivo. Segundo o «Digital News Report 2025», apenas 54 % dos portugueses dizem confiar nas notícias — o valor mais baixo desde 2015, quando o estudo teve início, apresentando um descida de 10 pontos na última década.
A resposta a esta crise não deve ser a censura, mas a exigência: rigor, independência editorial, transparência e ética.
É tempo de resgatar o verdadeiro papel da imprensa numa democracia: ser voz crítica e não juiz; ser fiscal do poder e não seu instrumento; ser espaço de pluralismo e não de propaganda. Cabe-nos, enquanto cidadãos, exigir esse compromisso — pois sem jornalismo responsável, não há verdadeira democracia!
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