Nas últimas semanas, o país voltou a viver em função dos exames nacionais. Discutimos falhas nas plataformas informáticas, atrasos na divulgação dos resultados e a ansiedade de milhares de famílias mantidas em suspenso. Mas, no meio de tanta polémica, uma questão mais profunda ficou por discutir.
Todos os anos, nesta altura, repetimos o mesmo ritual e ouvimos a mesma frase: «Coitado, esteve a estudar até às três da manhã.» Sempre que a ouço, penso exatamente o mesmo: o mercado de trabalho nunca pagou uma única hora de sofrimento.
Quase sem darmos por isso, o sistema ensina-nos a confundir exaustão com mérito. Como se a quantidade de sacrifício exigida por uma prova escrita fosse uma medida fiável da competência.
Não é.
Há trinta e um anos que atribuo classificações. Há mais de vinte e cinco que pago salários. Todos os dias passo da sala de aula para a empresa. E quanto mais tempo vivo nestes dois mundos, mais me convenço de que valorizam coisas muito diferentes.
Na escola, tendemos a admirar o esforço.
O mercado recompensa o valor.
Não é um detalhe. É uma diferença de paradigma.
Quando alguém conta que passou o fim de semana inteiro a trabalhar, a reação costuma ser de admiração. Crescemos a acreditar que o desgaste tem um valor moral. Como se o número de horas investidas fosse, por si só, um indicador de qualidade.
Mas o mercado nunca funcionou assim.
O mercado não compra o nosso cansaço.
Compra a utilidade das nossas soluções.
Se duas pessoas resolvem exatamente o mesmo problema, o mercado raramente pergunta qual delas sofreu mais. Pergunta quem resolveu melhor, mais depressa ou com maior impacto.
Pensemos num trabalhador a abrir e a fechar a mesma vala durante doze horas. O esforço físico é enorme. O valor criado aproxima-se do zero. A poucos quilómetros de distância, um programador escreve algumas linhas de código que eliminam milhares de horas de trabalho repetitivo numa organização.
Quem criou mais valor?
A resposta é óbvia.
Então porque continuamos a ensinar, ainda que involuntariamente, que o sofrimento é quase uma medalha?
Não estou a defender o fim dos exames. Nem a sugerir que estudar deixou de ser importante. O conhecimento continua a ser indispensável. Um médico, um engenheiro ou um professor nunca deixarão de precisar de estudar muito.
O problema não é o esforço.
É confundirmos o esforço com o objetivo.
O esforço é o caminho.
Nunca foi o destino.
Durante séculos, possuir conhecimento e conseguir recuperá-lo rapidamente foi uma enorme vantagem competitiva. Hoje, qualquer aluno tem acesso, em poucos segundos, a uma ferramenta capaz de resumir a Revolução Francesa, explicar uma fórmula de Física ou propor a estrutura de um plano de negócios.
Se continuarmos a preparar os jovens apenas para reproduzirem respostas, estaremos a treiná-los para competir precisamente naquilo que as máquinas já fazem mais depressa e por um custo incomparavelmente menor.
As respostas tornaram-se abundantes.
O pensamento continua raro.
É por isso que, ao longo destes anos, encontrei antigos alunos com médias extraordinárias que sentiram dificuldades quando deixaram de existir enunciados e soluções previamente definidas. E encontrei outros, perfeitamente medianos na escola, que hoje lideram empresas, criam emprego e resolvem problemas que nenhum teste alguma vez lhes colocou.
A escola ensinou-nos a valorizar o sacrifício de dar a resposta esperada.
O mundo lá fora recompensa a ousadia de resolver o problema real.
Daqui a meia dúzia de anos, nenhum empregador perguntará aos nossos filhos quantas noites passaram acordados a estudar para um exame nacional.
Perguntará apenas uma coisa: «Com o conhecimento que tens, que problema consegues resolver?»
Sobre o autor:
- Professor de Informática no Agrupamento de Escolas João de Deus
- Autor dos livros “ChatGPT para Professores” e “ChatGPT para Estudantes“
- Autor do website institucional www.aejdfaro.pt e responsável pela comunicação externa do Agrupamento.
- 30 anos de experiência como docente no Ensino Secundário
- 5 anos de experiência como docente no Ensino Superior
- Mais de 1000 horas de formação de adultos
- Fundador e Gerente da Webfarus Marketing Digital (www.webfarus.com)
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