Há uma distância reveladora entre o povo enquanto símbolo e o povo enquanto realidade. No discurso político, o povo é tratado como uma entidade luminosa: sábio, prudente, dotado de uma clarividência quase mística. É o povo que “sente”, que “sabe”, que “decide”, que “não se engana”. Mas esta veneração tem uma condição: só vale quando o povo vota “bem”.
No instante em que o povo vota “mal”, a mitologia desfaz-se como papel molhado. O sábio transforma-se em ignorante. O prudente vira manipulável. O soberano converte-se em massa acrítica. A mesma mão que ontem era celebrada por colocar a cruz no quadrado certo passa a ser acusada de ingenuidade, provincianismo ou falta de literacia política quando ousa escolher o quadrado errado.
A hipocrisia é tão transparente que quase se torna banal. O povo é sábio quando vota em nós; ignorante quando vota nos outros. É lúcido quando confirma; é enganado quando contraria. É soberano quando legitima; é massa quando desobedece.
A facilidade com que esta metamorfose ocorre é, em si mesma, um diagnóstico. O povo não é visto como sujeito político, mas como instrumento retórico. Serve para legitimar vitórias, nunca para explicar derrotas.
Quando o resultado é favorável, o povo é celebrado como guardião da democracia, exemplo de maturidade cívica, prova viva de que “o país está atento”. Quando o resultado é desfavorável, o mesmo povo é descrito como vítima de fake news, refém de populismos, alvo de manipulações, incapaz de compreender o que está em jogo.
A mensagem é clara: o povo é competente apenas quando coincide com a vontade de quem o descreve.
Esta oscilação revela uma tendência profundamente paternalista: tratar o povo como adulto quando convém e como criança quando não convém. Adulto quando vota “bem”, criança quando vota “mal”.
A infantilização é sempre seletiva. Serve para absolver quem perde e para glorificar quem ganha. Serve para transformar a política num exercício de moralidade: os bons são escolhidos pelos sábios; os maus, pelos enganados.
É uma forma subtil — mas eficaz — de desresponsabilizar os próprios atores políticos. Se o povo votou “mal”, a culpa não é da oferta política, da incapacidade de convencer, da distância entre elites e cidadãos. A culpa é do povo, que não percebeu. Conveniente. Muito conveniente.
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