Sintoniza-se a televisão à procura de notícias. O que encontramos, demasiadas vezes, é outra coisa: um híbrido estranho entre entretenimento e propaganda, embrulhado no vocabulário do jornalismo. As exceções existem, mas são cada vez mais raras — e é precisamente isso que deve preocupar qualquer cidadão que valorize a democracia.
A lógica do espetáculo tomou conta de muitos espaços mediáticos, mas não veio sozinha. Veio acompanhada de algo mais perigoso: a normalização de discursos que servem interesses particulares, económicos ou políticos, sob a aparência de análise neutra. Não é apenas ruído; é ruído com direção. Não é apenas opinião; é opinião que se apresenta como facto. Não é apenas entretenimento; é entretenimento que molda perceções e condiciona o debate público.

Jurista
Uma sociedade que não consegue distinguir informação de propaganda perde a capacidade de deliberar com lucidez
A propaganda contemporânea já não precisa de slogans gritados ou de censura explícita. Basta-lhe infiltrar-se nos formatos que o público reconhece como jornalísticos. Basta-lhe transformar comentadores em autoridades permanentes, repetir narrativas convenientes até parecerem consensuais, e substituir investigação por alinhamentos que reforçam a agenda de quem tem mais poder para influenciar. É propaganda de baixa intensidade, mas de alto impacto.
A televisão não está sozinha neste processo. As redes sociais amplificam-no, recompensando conteúdos que confirmam preconceitos, inflamam emoções e simplificam conflitos. O algoritmo não distingue jornalismo de manipulação; distingue apenas o que retém atenção. E, nesse ambiente, a propaganda encontra terreno fértil: circula rápido, exige pouco esforço cognitivo e oferece certezas fáceis num mundo complexo.
É verdade que existem jornalistas e redações que resistem. Mas são cada vez mais exceções num ecossistema dominado por modelos de negócio que privilegiam o imediato, o polémico e o conveniente. A investigação séria — aquela que incomoda, que expõe, que exige tempo e recursos — é frequentemente relegada para segundo plano. E quando a informação se torna um produto moldado para agradar, a propaganda deixa de ser um desvio e passa a ser parte do próprio sistema.
As consequências são profundas. Um público exposto a pseudo-informação torna-se mais vulnerável a narrativas manipuladoras, mais desconfiado do jornalismo sério e mais dependente de fontes que confirmam aquilo em que já acredita. A erosão mediática transforma-se, inevitavelmente, em erosão democrática. Uma sociedade que não consegue distinguir informação de propaganda perde a capacidade de deliberar com lucidez.
Perante isto, não basta consumir notícias; é preciso escrutiná-las. É preciso perguntar quem beneficia com determinada narrativa, quem perde com a ausência de outras, e porque razão certos temas são inflacionados enquanto outros desaparecem do radar. A literacia mediática não é apenas uma competência útil — é um mecanismo de defesa contra a manipulação.
Exigir melhor não é um capricho. É uma necessidade democrática. Porque, se aceitarmos que o espetáculo e a propaganda ocupem o lugar da informação, estaremos a abdicar da capacidade de compreender o mundo e de decidir sobre ele. E isso, simplesmente, não pode ser normalizado.
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