— Então, tiazinha, venha por aqui.
A senhora parou. Olhou para a funcionária e perguntou, com uma calma imperturbável que só os muito educados conseguem tornar desconfortável:
— Desculpe… somos família?
A funcionária sorriu.
— Não.
— Então porque me chama tia?
A resposta surgiu sem hesitação, como quem explica uma evidência.
— Porque gosto muito de velhinhas.
A conversa terminou ali. Mas eu fiquei detido àquela palavra.
“Tiazinha.”
Há pessoas que conseguem transformar um desconhecido num familiar com uma rapidez de fazer inveja ao Instituto dos Registos e do Notariado. A senhora entrou na clínica sem sobrinhos. Saiu com uma extensa árvore genealógica, rodeada por uma família alargada como nunca tinha tido.
Foi então que compreendi que existe uma idade em que deixamos de ser tratados como adultos sem que alguém nos informe da mudança.
Não acontece de um dia para o outro, nem requer um despacho publicado em Diário da República. É um processo discreto, quase sempre bem-intencionado. E talvez seja esse o seu maior triunfo: apresenta-se como uma manifestação de carinho.
A pessoa continua a votar, a pagar impostos, a cozinhar, a gerir contas, a discutir política e a lembrar-se, com frequência, de onde os outros deixaram as chaves. Continua a ser a mesma pessoa. Mas deixa de ser vista do mesmo modo. É curioso: quanto mais anos uma pessoa vive, menos parece contar como pessoa.
A biografia encolhe até caber num diminutivo. Já não é uma mulher. É uma “querida”. Já não é um homem. É um “avozinho”.
Décadas de trabalho, de perdas, de decisões, de alegrias e de responsabilidades condensadas num tratamento ternurento.
“Querida.”
“Avozinho.”
“Minha fofinha.”
É extraordinário como um diminutivo consegue apagar uma vida inteira sem levantar a voz.
Conheço uma senhora de noventa e um anos que cozinha melhor do que quase toda a família, governa a casa, lê jornais com um espírito crítico que faria corar muitos comentadores e continua a corrigir os erros de português dos netos.
Se lhe apresentam um problema, resolve-o. Se lhe apresentam uma opinião mal construída, em jeito de disparate, sabe devolvê-la à procedência.
Mas basta entrar numa consulta para deixar de ser a senhora que é. Transforma-se numa personagem.
Nalguns consultórios acontece um fenómeno curioso. O doente está sentado mesmo à frente do médico. É o único que fez análises. É o único que conhece o próprio corpo por dentro. Ainda assim, as respostas seguem invariavelmente outra direção.
— As análises estão ótimas. Diz o médico, ao filho, à filha ou ao genro.
Nunca percebi exatamente quando é que uma pessoa deixa de compreender português por fazer oitenta anos. Talvez exista uma idade em que a língua passe, de forma automática, a ser traduzida para o acompanhante.
Depois também há jornalistas. Uma mulher de cinquenta e quatro anos atravessa uma passadeira e transforma-se imediatamente numa “idosa”.
É um prodígio semântico. Não é idosa para trabalhar, para pagar impostos, para cuidar dos pais, dos filhos ou dos netos, mas é idosa para um rodapé de telejornal.
Que fazer? Há quem goste de pessoas. Há quem goste de categorias infantilizadoras, como as que se insinuam no termo “Velhinho”, qual categoria simpática, ao lado dos pandas, dos golfinhos e dos cãezinhos que usam impermeável no inverno.
Talvez fosse mais simples resolver a questão logo à saída da maternidade. Em vez de “recém-nascido”, talvez pudesse constar logo, na certidão de nascimento, “futuro idoso”. Sempre poupávamos algum trabalho às estatísticas.
E depois existe o tom. Esse tom inconfundível.
— Então? Vamos comer a sopinha?
Nunca ouvi semelhante pergunta num congresso de advogados.
Nem imagino um bastonário receber um colega dizendo:
— Então, doutor? Vamos fazer uma alegaçãozinha?
Há objetos com um estranho poder sobre a linguagem.
Uma bengala consegue infantilizar um adulto mais depressa do que um berço.
E há uma palavra particularmente reveladora.
“Ainda.”
— Ainda conduz?
— Ainda cozinha?
— Ainda vive sozinho?
O “ainda” é uma espécie de aviso prévio, de hipotética certidão de óbito antecipada, que revela bem a expectativa de quem pergunta. Como se viver deixasse, a certa altura, de ser o normal para passar a constituir uma surpreendente exceção.
Talvez seja esse o verdadeiro problema. Os mais velhos lembram-nos aquilo que passamos grande parte da vida a tentar esquecer. São um espelho colocado alguns anos mais à frente. Se tivermos sorte, havemos de lhes seguir o caminho.
E quase ninguém gosta de espelhos que exibem o futuro. Por isso inventámos uma forma delicada de os manter à distância.
Cobramo-los de ternura. Enchemo-los de diminutivos. Falamos com eles como quem segura uma antiga peça de porcelana. Embora haja uma diferença significativa entre a porcelana que se parte e as pessoas que envelhecem.
O tempo nunca transformou ninguém num bibelô. Limitou-se a acrescentar dias à mesma pessoa. Talvez o problema da velhice nunca tenha sido a idade.
Talvez seja o nosso olhar. Talvez seja por isso que passamos a vida inteira a desejar chegar onde eles chegaram. Talvez a maior ironia de todas seja a que resulta de passarmos a vida inteira a desejar chegar à velhice, ao mesmo tempo que celebramos cada aniversário como uma vitória sobre o tempo.
Mas, quando finalmente alguém lá chega, começamos a tratá-lo como se tivesse deixado de pertencer ao mundo dos adultos e, in extremis, ao mundo dos vivos.
Quando, na verdade, aconteceu exatamente o contrário. Chegou apenas mais longe do que nós.
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