Esta noite, o meu subconsciente pregou-me uma partida de muito mau gosto: sonhei que era Primeiro-Ministro.
Não por ambição — Deus me livre de semelhante vulgaridade —, mas por um daqueles costumeiros exercícios de imaginação que se fazem ao domingo, quando a realidade política já não chega para nos divertir.
Não sei se a culpa foi do jantar tardio, de uma digestão difícil ou apenas do estado de espírito da República, mas acordei com a bizarra ilusão de que tinha sido condenado a governar uma Pátria comatosa.
E, coisa curiosa, no meu sonho não havia o habitual séquito depassadeiras vermelhas, banda de música, guarda de honra, batedores, nem uma romaria de automóveis pretosa gastar combustível do Estado.
Havia apenas um comboio. Eu era Primeiro-Ministro e ia de comboio.
Achei logo que aquilo começava mal. Ou muito bem. Dependeria, naturalmente, do ponto de vista.
No sonho, tinha decidido introduzir em Portugal aquela admirável cultura política dos países nórdicos, qual Copenhaga solarenga, onde um ministro parece, apesar de tudo, uma pessoa normal e um deputado ainda pode entrar num transporte público sem provocar operações de segurança semelhantes às deslocações de uma família real. No sonho, deu-me para o progressismo nórdico. Imaginei Portugal
A primeira medida do meu Governo era simples: acabar com os excessos. Os ministros andariam de autocarro e de comboio. Os deputados também.
Eu, por razões de segurança, conservaria o carro oficial. É óbvio que um Primeiro-Ministro não pode ser levado ao ridículo de esperar quarenta minutos por um autocarro.
A democracia tem limites.
Também tinha determinado que os deputados não tivessem grandes gabinetes. Oito metros quadrados. Dez, vá. Doze para os mais importantes. Nada dessas salas onde tudo cabe: uma secretária; três assessores; duas secretárias; um sofá, uma televisão, uma máquina de café e, com alguma boa vontade, um pequeno Estado-Maior.
Naquele Parlamento nacional, cada deputado teria uma mesa, uma cadeira e talvez uma planta nativa da África Oriental, que poderia ser uma Impatiens walleriana, entre nós carinhosamente conhecida porMaria-Sem-Vergonha.
A planta seria opcional.
As pensões seriam transparentes. As ajudas de custo, justificadas. Os cartões teriam limites. E qualquer deputado que apanhasse um táxi quando existisse um comboio disponível teria de explicar tal façanha aos jornais.
Era um sonho, como se poderá entender. Nele, tudo funcionava. Até os políticos. Eu queria salários dignos, naturalmente. Não sou partidário da pobreza parlamentar. Mas também não desejava que um cidadão entrasse para a Assembleia e, ao fim de alguns anos, passasse a olhar para a classe média com o distanciamento clínico de um antropólogo a filmar uma tribo isolada num documentário da National Geographic.
Queria responsabilidade, transparência. Queria que os políticos percebessem o dinheiro público como um recurso escasso e suado, e não era como um milagre celestial que abençoa os ministérios.
Era o dinheiro das pessoas, das que pagam a gasolina, que esperam o autocarro, que chegam atrasadas ao trabalho porque o comboio chegou atrasado.
E foi então que tive uma ideia brilhante: experimentar a primeira regra da nova moral republicana: apanhar o comboio.
Fui apanhar o comboio para o Algarve.
Foi um momento de grande emoção nacional. As televisões noticiaram. Os jornais fizeram fotografias. As redes sociais entraram em franca convulsão.
O Primeiro-Ministro ia de comboio!
Confesso que fiquei comovido comigo próprio.
Ali estava eu, no meio do povo. Um homem singular como tantos outros. Ou quase.
Porque notava apenas uma pequena diferença: eu ia no comboio durante uma viagem, enquanto os outros iam no comboio porque tinham de ir.
Mas, no sonho, achei que isso era um mero pormenor. Sentei-me. Olhei pela janela. Bebi um café. Talvez tivesse custado um euro.
Naquele momento senti-me profundamente nórdico. Diria quase sueco, norueguês ou finlandês. Eu sei lá. Só me faltava o cabelo louro, e talvez o comboio a chegar a horas.
Mas isso já seria pedir demasiado à fantasia.
Foi então que me lembrei dos combustíveis. Da gasolina e do gasóleo. E daquela frase política extraordinária: o Estado ganha zero euros com a subida dos combustíveis. Zero. Uma maravilha. O cidadão paga mais, mas o Estado, coitado, não ganha nada com isso.
Então, eu, Primeiro-Ministro, tinha encontrado a solução:
— Andem de comboio.
Achei brilhante, até que uma voz atrás de mim perguntou:
— Mas qual?
Virei-me.
Era um cidadão.
— Como assim?
— Qual comboio? O que chega atrasado? O que vai sempre cheio? O que não passa àquela hora? O que fica parado porque houve um “constrangimento na circulação”?
Não soube o que responder.
— E quando não houver comboio?
Fiz um sorriso de estadista.
— Há sempre uma solução.
— Qual?
— O Passe Ferroviário Verde.
— O de vinte euros?
— Esse mesmo.
— E dá para o Alfa?
Fiquei em silêncio. O silêncio é, às vezes, a forma mais elegante de governar. Claro que não dava. Mas não havia problema. Porque no sonho eu tinha sempre uma solução. Primeiro, aumentava a dor na bomba, depois, oferecia um passe barato.
Era quase como partir as pernas a alguém e, no momento seguinte, entregar-lhe umas muletas.
Uma política social de proximidade.
Foi então que percebi uma verdade extraordinária: uma coisa é viajar de comboio, outra é depender do comboio.
Uma viagem é uma experiência. A dependência é uma rotina. Na primeira, leva-se uma máquina fotográfica. Na segunda, leva-se paciência.
Na primeira, bebe-se um café no bar. Na segunda, descobre-se o bar encerrado.
Na primeira, o atraso é uma oportunidade para falar de investimento na ferrovia. Na segunda, é uma falta injustificada ao trabalho.
Imaginei-me então às sete da manhã em Portimão. Sem carro. Sem motorista. Sem batedores. Sem comitiva. Apenas eu, feito Primeiro-Ministro e cento e cinquenta pessoas. O comboio atrasado. O ar condicionado sem funcionar. Um bebé a chorar. Uma senhora a discutir com o revisor.
E eu, muito nórdico, moderno e ecológico, a dizer:
— Tenham paciência. O transporte público é o futuro.
Foi então que um senhor me respondeu com uma graçola:
— O futuro? Pois que venha depressa, que tenho de picar o ponto às oito e ele não pagas contas.
Fiquei bloqueado. E foi nesse exato momento de blackout político que acordei. Estava na minha cama. Não havia Parlamento, não havia ministros, nem passes de vinte euros. E, graças a Deus, eu não era Primeiro-Ministro.
Confesso que respirei fundo com o alívio, mas fiquei ligeiramente deprimido. Porque, por umas horas, deu-me para acreditar que era possível termos um país onde o poder não precisasse de tanto aparato e blindagem mediática para se sentir importante e poderoso.
Um país onde os políticos pudessem ter um pequeno gabinete, um salário digno, um cartão com limites e a obrigação de explicar cada euro que gastassem.
Um país onde apanhar um comboio não fosse um acontecimento nacional, mas apenas apanhar um comboio.
Talvez seja por isso que gostei tanto do meu sonho.
Porque nele eu era Primeiro-Ministro. E, coisa curiosa, foi precisamente no sonho que descobri como seria bom deixar de me comportar como tal.
Quando acordei, pensei em voltar a dormir. Talvez conseguisse chegar à segunda parte. Aquela em que os ministros vão de autocarro, os deputados lavam a própria loiça, as berlinas pretas ficam na garagem e os comboios chegam a horas.
Mas já era dia e o mundo real não espera por reformas políticas imaginárias. Fui tomar o meu café sem assessores de imprensa a tirarem notas, sem fotógrafos de primeira página e sem uma escolta policial a abrir-me caminho. E, por um breve instante, quase me senti o líder do Governo.
Mas depois veio-me à cabeça o preço do gasóleo na fatura e a fantasia passou-me logo.
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