A notícia recente de que a China proibiu os “namorados” virtuais criados por inteligência artificial, afora o contexto político em que surge, convida-nos a olhar para uma questão que ultrapassa a discussão sobre regulamentação tecnológica: afinal, o que nos faz a tecnologia que fazemos?
Temo-la pensado como mero conjunto de ferramentas ampliadoras das nossas capacidades, embora a História mostre que cada uma transforma também quem a utiliza. Não muda apenas a forma como fazemos as coisas como também altera a maneira como percebemos o mundo, como nos relacionamos com os outros e até connosco próprios. A tecnologia, sendo uma extensão da ação humana, é também um propulsor que molda comportamentos, desejos e expectativas.
Os “companheiros virtuais” são um exemplo singular desta dinâmica no domínio dos afetos. Neles, as relações amorosas são concebidas para ouvir sem julgar, responder sem impaciência, adaptar-se às preferências do utilizador e oferecer disponibilidade permanente. À primeira vista, parecem responder a aspirações humanas legítimas: combater a solidão, proporcionar conforto emocional ou criar espaços de diálogo. Mas a questão decisiva não é aquilo que estas tecnologias fazem por nós, mas aquilo que elas estão a fazer de nós.
Esta deslocação merece atenção. Se durante séculos, a técnica foi entendida como um prolongamento da mão humana, hoje, insinua-se cada vez mais como um prolongamento da mente e dos afetos. A inteligência artificial torna-se um interlocutor. Não fabrica apenas objetos; produz experiências. Não substitui apenas trabalho; começa a substituir presença, com o que isso implica no domínio das emoções, dos afetos.
O problema não é mais a capacidade de as máquinas responderem a perguntas ou executarem tarefas. O que está em causa é a possibilidade de ocuparem um espaço que sempre pertenceu à experiência humana: o da intimidade, da companhia, da pertença e do afeto.
É aqui que a reflexão de Heidegger, no célebre ensaio sobre A Questão da Técnica, permanece atual. Para ele, o maior perigo da técnica não reside nas máquinas, mas na forma como estas moldam a nossa forma de habitar o mundo. A técnica não é apenas um conjunto de instrumentos. Quando tudo passa a ser visto como algo disponível, calculável e otimizado, também as relações humanas correm o risco de serem compreendidas segundo a mesma lógica.
Um “companheiro” virtual é, precisamente, o produto de uma relação otimizada. Está sempre disponível. Nunca se cansa. Aprende as preferências do utilizador. Evita conflitos desnecessários. Responde com a rapidez e a tonalidade emocional desejadas. Em suma, oferece aquilo que nenhuma relação humana consegue oferecer: uma adaptação quase perfeita ao desejo de quem a utiliza.
Mas talvez seja aí que reside a sua maior fragilidade. O encontro com o Outro nunca é uma experiência de controlo. Amar alguém implica aceitar a sua liberdade, a sua diferença, a sua imprevisibilidade. É na resistência do Outro que crescemos. Uma relação sem alteridade pode proporcionar conforto, mas não educa para a maturidade.
Bernard Stiegler lembrava que toda a técnica é um pharmakon: remédio e veneno, ao mesmo tempo. A escrita preserva a memória, mas pode enfraquecer a memorização; o automóvel amplia a mobilidade, mas reduz o exercício físico; a inteligência artificial pode aliviar a solidão, mas também dispensar a aprendizagem da convivência. A questão nunca é simplesmente se uma tecnologia é boa ou má. O problema está naquilo que ela reforça ou enfraquece na condição humana.
Byung-Chul Han observa que vivemos numa cultura que tende a eliminar toda a negatividade: a espera, o silêncio, o fracasso, a dor, o conflito. Procuramos experiências suaves, rápidas, personalizadas e sem fricção. Ora, a inteligência artificial parece responder exatamente a esse ideal. Um “parceiro” artificial nunca abandona, contradiz, ou exige um esforço de reconciliação. É a promessa de uma relação sem vulnerabilidade.
Contudo, uma existência sem vulnerabilidade aproxima-se, de um modo perigoso, de uma existência sem profundidade. As experiências mais decisivas da vida humana — a amizade, o amor, a educação, o cuidado — nascem da exposição ao Outro, da possibilidade de sermos contrariados, transformados e surpreendidos. A perfeição funcional empobrece aquilo que constitui a riqueza da experiência humana.
A questão ainda é mais inquietante quando a inteligência artificial começa a reproduzir pessoas falecidas ou a criar avatares indistinguíveis de seres humanos. Já não estamos apenas perante uma automatização de funções; assistimos à digitalização da presença. A tecnologia aproxima-se do lugar simbólico da memória, do luto e da identidade. E isso obriga-nos a perguntar se tudo aquilo que é possível do ponto de vista técnico é também desejável do ponto de vista do humano que há em nós.
Talvez a maior metamorfose não esteja nas máquinas, mas nas expectativas que passamos a ter acerca dos Outros. Depois de convivermos com sistemas que respondem de imediato aos nossos desejos, seremos ainda capazes de acolher a lentidão das relações humanas? Depois de dialogarmos com inteligências que nos validam dia após dia, conseguiremos escutar quem pensa de forma diferente? Depois da experimentação de afetos sem risco, continuaremos disponíveis para amar pessoas reais, com toda a sua imperfeição?
É por isso que a pergunta “o que nos faz a tecnologia que fazemos?” não admite respostas simplistas. A inteligência artificial não determina uma inevitabilidade no futuro da humanidade. Mas cada tecnologia é portadora de uma pedagogia invisível: ensina-nos hábitos, molda sensibilidades, redefine expectativas. O que parecia ser apenas uma ferramenta torna-se uma forma de viver.
Dizer que a IA não sente, não sofre, não ama; não escreve “cartas de amor ridículas”, apenassimula essas experiências através da linguagem e do reconhecimento de padrões, não é garantia de coisa nenhuma. É sabido que, para quem com ela interage, a experiência emocional pode ser convincente a ponto de produzir vínculos reais.
Talvez o grande desafio do nosso tempo não consista apenas em desenvolver inteligências artificiais mais poderosas, mas em preservar inteligências humanas capazes de discernimento, de compaixão, de demora e de encontro.
Porque uma sociedade sofisticada do ponto de vista tecnológico pode, paradoxalmente, tornar-se mais pobre do ponto de vista humano se esquecer que aquilo que nos constitui não é apenas a eficiência, mas a relação. Tal envolve a reciprocidade entre pessoas livres, a vulnerabilidade que faz parte de qualquer relação autêntica, a capacidade de crescer através do encontro com o outro.
No final, a questão impõe-se com renovada intensidade. Não basta saber o que é possível fazer com a tecnologia. Importa perceber quem nos estamos a tornar com ela. Afinal, cada invenção humana acaba sempre por criar, um pouco, um novo modo de ser humano.
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