Para lá dos países que educam, seja para a liberdade ou para o progresso, existe uma velha criatura marítima que, tendo descoberto oceanos, permanece incapaz de encontrar o caminho entre a sala dos professores e a carteira de um aluno.
Nele, a educação virou um falatório cerimonial, onde os governos anunciam reformas com o entusiasmo de quem descobre a pólvora seca.
Os sindicatos defendem direitos, talvez porque uma escola que maltrata os seus professores dificilmente educará alguém. Os especialistas apresentam modelos importados e os comentadores são conhecedores de todas as soluções. Os partidos descobrem, na educação, um estranho talento nacional para transformar problemas permanentes em debates temporários.
No fim de cada legislatura mudam o ministro, a denominação das reformas e a sigla da moda. A escola permanece como um velho edifício onde se vai pintando a fachada para evitar que se olhe para as fundações.
Entretanto, os alunos, personagens principais de uma peça na qual não têm direito à palavra, ficam à espera. Fala-se deles. Decide-se por eles. Estatui-se em nome deles. Mas é raro alguém perguntar o que realmente aprendem quando a cortina desce e o espetáculo político termina. Talvez porque as crianças não votem e os adolescentes ainda não tenham aprendido a arte de pressionar governos. O futuro, esse ingrato, continua sem representação parlamentar.
A burocracia, essa nunca falta às aulas. Instalou-se nas escolas com a perseverança do bolor. Por sua conta, multiplicam-se plataformas, relatórios, grelhas, indicadores, planos de melhoria, monitorizações, evidências, autoavaliações e avaliações das autoavaliações. Descobriu-se uma nova teoria pedagógica: a de que quanto menos tempo existir para ensinar, mais tempo deverá existir para provar que se ensinou.
Se o conhecimento se expandisse em formulários, Portugal seria uma superpotência intelectual.
Na abcessão por números cabem sucessos, insucessos, inclusões, exclusões, retenções e abandonos. Só há uma variável que insiste em escapar às estatísticas: aquilo que os alunos realmente sabem.
As universidades conhecem bem esse fenómeno. Recebem, todos os anos, jovens com médias aceitáveis. Muitos chegam incapazes de construir um raciocínio sólido, interpretar um texto exigente ou distinguir uma opinião de um argumento e ainda por cima tratam a língua portuguesa como uma disciplina estrangeira.
Compreende-se que assim seja no contexto das greves constantes, conquistadas para proteger a dignidade de quem trabalha e não para serem postas em causa por oportunismos de ocasião. Mas um direito também se revê num espelho. Sempre que uma escola fecha portas durante períodos intermitentes e prolongados fins-de-semana, urge questionar quanto custa esse silêncio ao aluno que depende apenas da escola para aprender? Quem lhe devolve uma explicação perdida? Quem restitui uma oportunidade perdida?
Há silêncios que tumultuam mais do que qualquer manifestação.
Entretanto, governos e sindicatos discutem carreiras, horários, estatutos, orçamentos, modelos de avaliação e calendários. Tudo importante e necessário. Todavia, o problema começa quando a conversa termina exatamente onde deveria começar: no aluno.
É curioso este país. Nele, todos afirmam lutar pela educação. Poucos parecem lutar pela aprendizagem.
Ora, as escolas nunca existiram para servir ministérios. Nem sindicatos. Nem governos. Nem partidos. Nem plataformas. Nem rankings. Existem para aqueles jovens que levantam a mão porque ainda acreditam que perguntar é o princípio de aprendizagem.
É curioso este país. Nele, também descobrimos uma curiosa forma de igualdade: baixar a fasquia e chamar-lhe inclusão.
Confundimos facilidade com justiça. Aprovação com conhecimento. Diploma com inteligência. Certificação com educação.
A mediocridade tem a perigosa virtude de se instalar de mansinho. Um dia daremos por nós satisfeitos porque quase todos passam de ano. No dia seguinte descobriremos que quase ninguém sabe explicar porquê.
Nenhuma sociedade combate desigualdades oferecendo menos conhecimento aos mais frágeis. Isso não é inclusão; é desistência embrulhada em boas intenções. A verdadeira igualdade nunca consistiu em baixar a fasquia, mas sim em dar a todos as mesmas condições para a alcançar.
Educar nunca foi fabricar diplomas, nem distribuir sucesso administrativo como quem distribui senhas numa repartição pública.
Educar é um verbo perigoso. Destina-se a ajudar pessoas a pensar quando o conveniente seria obedecer. Ensina a duvidar quando todos repetem. Ensina a perguntar quando os discursos exigem silêncio. Ensina a imaginar quando o mundo prefere funcionários obedientes. Talvez seja por isso que educar incomoda tanto.
Porque uma população instruída questiona. E as perguntas têm o péssimo hábito de exigir respostas.
Talvez a maior reforma educativa nunca surja de um decreto, nem de um gabinete ministerial. Talvez comece no dia em que este país perceber que o aluno não é um destinatário das políticas educativas: é a única razão para elas existirem.
Até lá continuaremos a inaugurar reformas como quem inaugura rotundas, numa estrada esburacada.
Quando um país falha na educação, não perde apenas competitividade nem desce nos rankings internacionais. Perde memória, espírito crítico e liberdade. Vai hipotecando o futuro com a serenidade burocrática de um funcionário que carimba papéis sem nunca lhes ler o conteúdo.
Talvez um dia este país descubra uma verdade desconcertante de que há tragédias que começam precisamente assim: não com um estrondo, mas com o discreto som de mais um carimbo.
A continuar por este caminho, é de temer que o futuro do país, ao chegar para apresentar a conta, já não aceite reclamações.
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