Dizem que a escola nasceu para ensinar o mundo às crianças. Tenho para mim que, entre nós, aconteceu o contrário: foi o mundo que acabou por ensinar a escola a esquecer-se de si própria.
Ela, que deveria aprender a cultivar humanidade antes de fabricar desempenho, tornou-se um insólito estaleiro onde se montam competências com admirável precisão e se desmontam, peça a peça, a curiosidade, o espanto e a delicada arte de reparar um coração partido.
As salas de aula respiram hoje o odor discreto das plataformas digitais e das palavras que nasceram para parecer modernas antes de aprenderem a ser autênticas. O velho quadro negro observa, em silêncio, o desfile das reformas educativas que entram com uma solenidade profética e saem com a humildade dos enganos.
Nos gabinetes da capital, onde o ar condicionado aboliu as estações do ano e as janelas desaprenderam de abrir, continuam reunidos os artífices do ensino. Nenhum deles parece conhecer a lentidão de uma criança que leva uma tarde inteira a compreender uma ideia. Ainda assim, desenham mapas para todas as escolas, como quem distribui o mesmo par de sapatos a pés que nasceram para trilhar diferentes formas de caminhar.
No entanto, decidimos que todas as crianças deveriam florescer na mesma primavera, embora a natureza nunca tenha concordado com isso.
Há décadas que esquerda e direita disputam a posse da escola. Fazem-no com o entusiasmo de crianças que brigam pela sombra da mesma árvore, esquecendo que esta pertence ao chão e o chão ao futuro. Enquanto discutem bandeiras, as crianças continuam a crescer — e o futuro não espera que os adultos terminem as suas querelas.
Depois chegam os exames.
Ninguém os vê aproximar-se. Mas as escolas mudam de respiração. Os corredores falam mais baixo. Os livros deixam de convidar para a descoberta e passam a ensinar o caminho mais curto até à resposta certa. As perguntas emagrecem. A curiosidade, essa ave que nasceu para atravessar horizontes, aprende finalmente a voar em círculos.
Os exames gostam de estradas direitas, enquanto imaginação sempre preferiu atalhos. Talvez por isso tenhamos acreditado que uma escola pode produzir alunos como uma fábrica produz parafusos. Esquecemo-nos de que as escolas não fabricam gente. Cultivam-na. E cultivar nunca foi o mesmo que produzir.
Inventámos balanças para pesar o trigo, relógios para medir o tempo e exames para contar o saber. Apenas nos falta descobrir o instrumento capaz de medir um espanto. E suspeito que nunca o encontraremos, porque o espanto foge sempre de quem tenta aprisioná-lo numa qualquer pauta de classificação.
No dia em que conseguirmos atribuir uma nota à curiosidade, outra à ternura e uma terceira à imaginação, nesse mesmo dia elas abandonarão a escola em silêncio, como pássaros que recusam viver dentro de uma gaiola cuidadosamente formatada.
Há escolas que ensinam tão bem a responder que acabam por desaprender a perguntar. E um ser humano que já não pergunta transforma-se, pouco a pouco, num silêncio vestido de gente.
Durante largas e inteiras semanas deixa de se ensinar para compreender. Ensina-se para acertar. As respostas alinham-se como soldados numa parada militar. O pensamento, esse velho caminhante apaixonado pelos desvios da dúvida, é aconselhado a permanecer sentado, em silêncio, para não perturbar a ordem do exame.
Finalmente, com o grande dia, chega o medo. E quando o medo entra primeiro na sala de aula, a inteligência costuma pedir licença para sair pela janela.
Sobre cada carteira pousa uma folha de papel com a solenidade de um juiz antigo. Há quem acredite que aquelas páginas conseguem medir a inteligência, a criatividade, o carácter e até o futuro. É um curioso milagre administrativo: comprimir anos de descoberta, de hesitação, de fracasso, de espanto e de crescimento em poucas horas de escrita disciplinada.
Nunca vi uma vocação obedecer a uma grelha de classificação.
Nunca vi um futuro pedir autorização a uma pauta.
Talvez o maior equívoco da nossa educação se deva ao dia em que confundimos medição com compreensão. Desde então, trocámos conhecimento por classificação, inteligência por desempenho e sabedoria por aprovação.
Mas há coisas que nasceram para permanecer indomáveis. A imaginação, a dúvida, a compaixão, a beleza, o espanto — tudo aquilo que, em boa verdade, educa um ser humano — escapa, por natureza, à fita métrica da burocracia.
Uma nação começa a empobrecer muito antes de empobrecer a sua economia. Empobrece quando deixa de perguntar às crianças o que sonham e passa apenas a questionar quanto obtiveram.
Nesse dia, a escola permanece de portas abertas, mas o futuro já saiu pela janela.
Leia também: No cume da crise | Por José Figueiredo Santos















