Hoje debruço-me sobre a crise por uma razão prudente: toda a gente está de férias e, nestes dias de distração nacional, até a verdade consegue passar despercebida.
Insistiram comigo, há dias, que Portugal atravessa uma grave crise. Agradeci a informação. Julgava que tal já fosse a paisagem rasmolga do seu quotidiano.
Há muito que a crise deixou de ser um acontecimento. Instalou-se. Fez-se residente. Trouxe a mobília, mudou o domicílio para o país, recebeu correspondência, matriculou os filhos na escola e até já cumprimenta os vizinhos pelo nome. Tornou-se portuguesa sem precisar de requerer nacionalidade.
Mas enganam-se os que insistem em chamá-la crise económica. O dinheiro apenas mudou de esconderijo, como fazem os animais prudentes antes da tempestade. Também não é apenas financeira: os números continuam bem alimentados nos lugares onde sempre fizeram as suas refeições. Nem sequer é somente social, porque a pobreza aprendeu a vestir fato e gravata para poder entrar nas estatísticas sem perturbar o protocolo.
A verdadeira epidemia instalou-se noutro lugar: na política, essa velha árvore que todos juram podar e que continua, ano após ano, a produzir exatamente os mesmos frutos, apenas embrulhados em novos rótulos.
Os partidos deixaram de disputar ideias; disputam perceções. Já não perguntam ao país para onde quer ir; perguntam às sondagens quem vai à frente. A bússola foi substituída pelo teleponto. O pensamento cedeu lugar aos diapositivos. A convicção transformou-se numa aplicação que se atualiza dia a dia conforme os ventos das redes sociais.
Entretanto, o cidadão foi sendo discretamente promovido à condição de figurante da sua própria democracia. Continua em palco, mas já não lhe deram falas. Limitaram-se a pedir-lhe que aplaudisse nos momentos certos.
A política transformou-se num espetáculo cuidadosamente ensaiado para a gestão das emoções e a apreciação estética dos candidatos. Esses, por sua vez, deixaram de procurar convencer para passarem a seduzir. Os programas emagreceram até caberem numa frase. Os discursos perderam ideias para ganharem efeitos sonoros. E a verdade, cansada de esperar pela sua vez, retirou-se discretamente dos bastidores.
Chamam-lhe povo apenas durante as campanhas eleitorais. Terminada a representação, o cidadão volta a ser contribuinte, utente, consumidor ou incómodo estatístico.
Vivemos tempos perigosos em que mundo reaprendeu a fabricar guerras com a mesma dedicação com que a nossa infância fabricava brinquedos. A paz transformou-se num breve intervalo entre encomendas de armamento. Os mercados estremecem, os impérios espreguiçam-se sobre mapas alheios e as fronteiras voltaram a crescer como ervas daninhas depois da chuva.
Mas talvez o maior perigo continue a morar dentro de casa. Há cinquenta anos abriram-se as janelas da liberdade. Pensava-se que por elas entraria luz, mas entrou também muito ruído. Confundimos democracia com calendário eleitoral e liberdade com o direito de falar mais alto do que o vizinho.
Esquecemo-nos de cultivar aquilo que nunca se inaugura com discursos nem se corta com fitas: a cultura democrática.
A escola, coitada, trabalhou sem descanso. O episódio dos exames digitalizados, sendo revelador, é apenas um sintoma. A sua discreta enfermidade é mais antiga. Ela descobriu a extraordinária capacidade de produzir certificados em série, licenciados às carradas e especialistas em preencher formulários com impecável rigor. Escapou-lhe, porém, um detalhe quase irrelevante: ensinar pessoas a pensar.
Diplomámos competências; esquecemo-nos da consciência. Ensinámos respostas corretas, mas fomos desaprendendo a formular aquelas perguntas incómodas que obrigam as sociedades a crescer.
E um povo que deixa de perguntar acaba sempre por aceitar qualquer resposta.
Foi então que o populismo entrou sem que tenha tido necessidade de bater à porta. Encontrou-a escancarada pela confortável ignorância que fomos cultivando, ao longo de cinco décadas. Não prometeu soluções. Prometeu culpados. E um culpado custa sempre menos do que uma solução.
Há uma antiga sabedoria africana segundo a qual o feiticeiro só conserva o seu poder enquanto a aldeia acreditar no feitiço.
Entre nós, aperfeiçoou-se o método. O feiticeiro já nem precisa de magia. Basta-lhe uma boa equipa de comunicação para o fabrico de ilusões, dois slogans repetidos com a aparência de verdade e uma multidão cansada ao ponto de confundir o eco com a própria voz.
Enquanto isso, da esquerda à direita, os grandes partidos permanecem atolados em margens opostas do mesmo pântano. Discutem com fervorosa paixão quem possui a melhor ponte, esquecendo-se de que há muito deixou de correr água por baixo dela. Trocam acusações com a solenidade dos grandes salvadores da pátria, quando, na verdade, disputam apenas a administração das ruínas.
Talvez um dia descubram que governar nunca consistiu em derrotar o adversário, mas em impedir que o país saia derrotado.
Até lá continuaremos a subir. Subiremos sempre, porque o país possui um talento bem singular: consegue viver no cume da crise sem jamais alcançar o planalto da esperança. É um alpinista condenado a escalar o mesmo precipício. Cada cume revela apenas outro cume. Cada chegada disfarça uma nova partida. Mudamos o nome da montanha para conservar intacta a vertigem.
E talvez resida aí a nossa mais subtil vocação nacional: fazer do fundo uma escada.
E, do alto deste interminável cume, contemplamos o horizonte luminoso de um país inteiro coberto de promessas. Apenas o futuro, por delicadeza ou cansaço, insiste em não comparecer.
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