O povo, na sua ancestral sapiência, sem cátedra nem subsídio para investigação, deixou-nos uma advertência que atravessou séculos com a serenidade das verdades simples: importa não confundir alhos com bugalhos.
O alho, humilde bolbo de cozinha, nasceu para temperar a vida. O bugalho, pelo contrário, é uma pequena excrescência vegetal que nasce quando um inseto transforma a árvore em maternidade para a sua descendência. Um nasce da terra. O outro, de uma picada. A natureza, sábia como sempre, tratou de nos ensinar que nem todas as protuberâncias significam crescimento.
Sucede, porém, que a política moderna decidiu corrigir a botânica.
Vivemos num tempo em que os bugalhos passaram a explicar aos alhos como funciona o mundo. Fazem-no com uma convicção quase religiosa, falando depressa, gesticulando muito e exibindo aquele entusiasmo dos vendedores de banha da cobra que acreditam comercializar o elixir da eterna juventude.
Foi assim que anunciaram, com a pompa digna de uma proclamação imperial, que o Estado iria pagar as horas extraordinárias aos docentes profissionalizados convocados para acudir ao naufrágio tecnológico dos exames digitais.
Confesso que fiquei à espera do resto.
Imaginei que, logo a seguir, comunicariam a prorrogação do acordo com o Sol para mais um ano de iluminação pública ou a celebração de um protocolo internacional para abrir furos na Lua, garantindo água nas partes baixas do Tejo.
Mas não.
A grande novidade era o estrito cumprimento da lei.
Há qualquer coisa de profundamente enternecedor nesta nova escola de comunicação política. Os bugalhos descobriram que basta embrulhar uma obrigação em papel celofane para ela ganhar a dimensão de uma dádiva. O dever transforma-se em generosidade; a obrigação legal converte-se em gesto magnânimo.
Hoje anunciam o pagamento de horas extraordinárias, em jeito de quem sugere que o Estado vai deixar de as empastelar. Amanhã talvez comuniquem, entre aplausos cuidadosamente ensaiados, que decidiram respeitar a Constituição às quartas-feiras e respirar na legalidade durante os restantes dias da semana.
A propaganda — Goebbels sabia-o bem — é uma arte singularíssima. Não procura melhorar a realidade; limita-se a retocar-lhe o retrato. Depois contempla-se ao espelho com o fervor de Narciso e, quando este insiste em devolver-lhe a mesma imagem, acusa-o de falta de patriotismo.
Existe, aliás, uma espécie particularmente abundante de porta-voz convencida de que a eloquência substitui os acontecimentos. Fazem-no com tamanha convicção que, por momentos, quase conseguem colocar a realidade a duvidar de si própria.
Cada declaração surge envolta numa solenidade quase litúrgica, como se a História aguardasse, com ansiedade, a próxima conferência de imprensa para decidir em que direção continuará a caminhar.
É possível que acreditem sinceramente no que dizem. Há ilusões que dispensam demonstração e sobrevivem alimentadas apenas pelo eco da própria voz. É que o “Caracol do seu ouvido tem música”.
São como crianças que oferecem aos pais um desenho onde o céu é verde e as célebres “vacas voadoras” têm a ousadia de voar. A diferença é que as crianças ainda não frequentam Conselhos de Ministros.
Entretanto, os docentes deliciam-se com horas extraordinárias porque alguém descobriu demasiado tarde que modernizar um sistema exige mais do que comprar computadores e organizar apresentações em PowerPoint. Primeiro fabrica-se o problema. Depois improvisa-se o remédio. Finalmente convoca-se uma conferência de imprensa para anunciar que o Estado cumprirá a obrigação de pagar o trabalho adicional provocado pela sua própria embrulhada.
É uma invenção política admirável, cultivada com igual entusiasmo à esquerda e à direita: transformar a incompetência em generosidade e o dever em favor.
Talvez seja esta a mais sofisticada engenharia da propaganda contemporânea. Já desistiu de prometer paraísos. Limita-se a apresentar a normalidade como um milagre administrativo.
Mas há um pequeno inconveniente.
A realidade nunca precisou de porta-voz. Tem o velho hábito de aparecer sem maquilhagem, de chegar sem assessores de comunicação e de ignorar os comunicados antes de acontecer.
E quando, por fim, entra em cena, faz aquilo que sempre fez desde o princípio do mundo: devolve os bugalhos às árvores, os alhos à cozinha e os milagres administrativos ao único lugar onde florescem — os gabinetes de comunicação.
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