Aplaudo de pé e com a emoção própria de quem assiste a um milagre urbanístico, a decisão de se construir um Portugal cheio de casas para arrendar.
Não penso no Portugal já existente, o do arco-da-velha, que acorda todos os dias à procura de uma renda que caiba dentro do salário. Esse levanta-se cedo para descobrir se o salário cresceu durante a noite e constata que apenas floresceu a prestação da casa.
Refiro-me ao outro país. Ao extraordinário Portugal dos comunicados.
Nele, as casas não precisam de nascer da terra. Germinam diretamente da linguagem. Semeiam-se anúncios, regam-se conferências de imprensa e colhem-se expectativas. Primeiro são verbo, depois promessa e, finalmente, fotografia de uma maquete. Se tiverem sorte, um dia hão-de ganhar paredes. Aliás, muitas preferem permanecer palavras: dão menos trabalho e dispensam licenças de utilização.
Na última assembleia ministerial de condomínio, foi anunciada uma descoberta científica capaz de revolucionar a engenharia nacional: a confiança.
Durante séculos, a humanidade desperdiçou tempo com pedra, ferro, madeira e betão. Um erro histórico, conquanto o verdadeiro material de construção era a confiança no mercado de arrendamento. É um cimento invisível: não suporta peso, mas aguenta uma legislatura.
Se os antigos egípcios o tivessem conhecido, talvez as pirâmides fossem hoje apenas comunicados muito bem redigidos.
Também foi descoberta a liberdade contratual. Uma liberdade admirável, sobretudo quando uma das partes possui dez apartamentos e a outra apenas uma mala de viagem. Chamam-lhe negociação. A disparidade, quando frequenta simpósios e mesas redondas, regressa sempre com um vocabulário bem mais chique.
Percebeu-se, entretanto, que a escassez de habitação nunca resultou da falta de casas, mas de um excesso de desconfiança. Resolvido esse equívoco semântico, espera-se agora que as rendas, devidamente sensibilizadas, tenham, finalmente, boas maneiras.
Os proprietários sentir-se-ão mais seguros. Os inquilinos, esses seres mitológicos que conseguem ganhar um salário e pagar uma renda, continuarão protegidos. Desde que consigam pagar. É óbvio que os senhorios não vivem da gratuidade dos seus bens patrimoniais.
A burocracia também foi solenemente eliminada. É um danado ritual antigo da nossa administração: sempre que se anuncia uma reforma, declara-se a morte da burocracia. O curioso é que ela continua a comparecer ao seu próprio funeral, distribuindo certidões de sobrevivência. Dias depois reaparece, saudável, acompanhada de novos códigos, novas plataformas e uma senha eletrónica destinada a marcar a senha anterior. Ela é, talvez, o único santo português que ressuscita ao terceiro dia útil.
Criou-se igualmente um Fundo de Emergência para a Habitação. A governação, seja de direita ou de esquerda, aprecia fundos. Equivalentes administrativos das promessas de Ano Novo, os fundos produzem uma agradável sensação de virtude e uma discreta alergia ao cumprimento. Perder a casa continuará a ser uma fatalidade; a diferença é que agora a tragédia poderá ser processada com maior rapidez. Confundimos, com frequência, velocidade com solução.
Também os idosos, nomeadamente os mais frágeis e vulneráveis, foram recordados de forma cuidada. A política enternece-se sempre com estes termos. São pessoas assaz importantes para aparecerem nos discursos e são suficientemente esquecidas para continuarem à espera que tais alocuções se transformem em edificações.
No fim, chegam os inevitáveis verbos do júbilo administrativo: promover, reforçar, dinamizar, simplificar, modernizar. São vocábulos que trabalham de modo incansável para evitar que a realidade se obrigue a acompanhá-los. Chegam mesmo a fazer turnos de vinte e quatro horas para evitar que os substantivos tenham de sair da cama.
Suspeito, aliás, que o maior bairro habitacional do país já terá sido construído com o uso daqueles termos. Há famílias inteiras instaladas entre o “promover” e o “modernizar”, sem culpa formada de que as palavras trabalhem mais do que as obras. Há comunicados que já ultrapassaram, em metros quadrados, muitos bairros inteiros, inaugurando aquilo que as eretas gruas ainda desconhecem.
Talvez esta seja a genuína inovação portuguesa: construir expectativas em vez de edifícios, espalhar a confiança antes de aumentar a carteira de imóveis e inaugurar resultados antes de existirem causas. Descobrimos, finalmente, a quadratura do betão: uma engenharia metafísica onde a gramática substitui o cimento e a linguagem faz o trabalho das fundações.
Começo a suspeitar de que o maior empreendimento imobiliário do país possa ser a própria linguagem oficial.
Pelo menos, nela ainda parece caber toda a gente.
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