O dinheiro nunca foi mudo. Inventaram-lhe o silêncio para que não se ouvisse o discreto tinir das moedas quando aprendem a mudar de bolso sem passar pela alfândega da consciência. Mas o dinheiro fala. Fala tanto que acabou por convencer o mundo de que o silêncio também pode ser uma excelente forma de discurso.
A sua língua é antiga. É feita de notas dobradas, de recibos esquecidos e de promessas plastificadas. A sua gramática apenas conjuga o verbo favorecer.
Há dias em que acorda filósofo. Instala-se à mesa de um café da República, pede um expresso pingado — invariavelmente pago por outro — e diverte-se a ouvir os clientes. Um queixa-se da democracia. Outro suspira por um homem forte. Um terceiro culpa a corrupção por todos os males nacionais.
Recentemente, um estudo revelou que muitos portugueses estariam dispostos a confiar o país a um líder musculado, feito Rambo, desses que dispensam Parlamentos, eleições e outras excentricidades. O dinheiro sorriu. Conhece demasiado bem os homens para lhes estragar as ilusões.
Sempre achou curioso que, quando a casa começa a meter água, haja quem não procure um pedreiro, mas um salvador. É um velho hábito nacional: mudar o retrato da parede e esperar que o telhado deixe de chover.
Entretanto, a corrupção alcançou um feito notável. Conseguiu convencer muito boa gente de que nasceu com a democracia. Como se “dantes” fosse apenas uma criança por amamentar. Há mesmo quem imagine esse “dantes” como um mosteiro de virtudes, onde até as carteiras faziam voto de pobreza.
O dinheiro riu a bandeiras despregadas e quase se engasgou. Conhecia demasiado bem aquele convento, onde a corrupção era apenas mais discreta. Vestia fato escuro, fazia continência, tratava todos por “Senhor Doutor” e chamava “favor” ao privilégio.
Era uma corrupção educada. Até pedia licença antes de passar à frente da honestidade.
Recusava-se a aparecer nos jornais porque estes tinham adquirido o estranho hábito fechar os olhos antes de abrir as páginas. A rádio dizia o que podia. O resto era administrado por um funcionário exemplar, de seu nome Silêncio de Tumba, que nunca metia baixa.
Hoje, a corrupção trocou de guarda-roupa. Engalanou-se, descobriu os estúdios de televisão, tropeçando a toda a hora nos microfones, nos telemóveis, nas redes sociais e nesse desporto radical que consiste em condenar primeiro e investigar depois.
Não cresceu, mas acenderam-lhe os holofotes, fazendo que haja quem confunda a luz com a multiplicação dos pães.
Enquanto os homens discutem os regimes, o dinheiro limita-se a mudar de carteira. Nunca tem preferência por bandeiras. Sempre preferiu bolsos.
A corrupção é, aliás, uma criatura profundamente conservadora. Não vota à esquerda nem à direita. Não usa cravo nem faz continência. Instala-se simplesmente onde encontra portas entreabertas, consciências distraídas e memórias convenientes.
Aprendeu cedo que os governos passam, os discursos envelhecem e as ideologias mudam de casaco. Os bolsos, esses, permanecem impecavelmente fiéis à condição humana.
O “dantes” conhecia bem esta ciência das sombras. Governava como um jardineiro que podava os homens em vez das árvores. Escolhia ministros como quem escolhe peças de xadrez: cruzando inteligências e obediências cegas. Uns subiam porque sabiam ajoelhar-se. Outros caíam porque começavam a endireitar a coluna.
Há dias, um velho professor universitário contou-me uma pequena parábola. Havia um homem que estudara vinte anos. Ao lado dele estava outro que estudara apenas o caminho até ao gabinete certo. Chegado o concurso, o primeiro apresentou diplomas. O segundo apresentou um número de telefone.
O júri não hesitou. A conveniência tinha estacionamento reservado.
O dinheiro nem pestaneja. Já ouviu histórias como estas centenas de vezes, contadas com nomes diferentes.
Também conhece certas famílias cujos apelidos atravessam os regimes como as enguias atravessam os rios. Aprenderam a sobreviver às mudanças como quem muda de roupa interior.
Por isso, quando alguém garante que houve um “dantes” sem corrupção, talvez não esteja a fazer História. É bem possível que esteja apenas a sofrer, sem o saber, de uma doença muito portuguesa: a nostalgia seletiva. Uma espécie de miopia da memória que transforma a censura em disciplina, o medo em respeito e o silêncio em honestidade.
E o dinheiro, esse velho ventríloquo da condição humana, continua a falar. Não porque tenha voz própria, mas porque nunca lhe faltaram bocas dispostas a pronunciá-lo.
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