Os exames decidiram atravessar o século e instalar-se no futuro.
Os computadores, porém, ficaram algures pelo caminho, olhando a água como quem teme afogar-se na própria modernidade.
Durante meses anunciaram-se plataformas inteligentes, sistemas vigilantes, autenticações sucessivas e mecanismos tão sofisticados que pareciam capazes de corrigir as próprias dúvidas antes mesmo de elas nascerem.
Prometeram uma experiência pedagógica digna de um futuro já chegado. Mas o futuro tem destas ironias: basta um servidor espirrar para a inovação apanhar febre tifoide.
Continuava-se a falar da tecnologia como outrora se falava dos milagres.
Com fé. Muita fé.
Talvez tenha sido o primeiro exame em que o conhecimento disputou espaço com a fibra ótica.
Chegado o grande dia, bastou um estremecimento invisível nas profundezas da rede para que o futuro revelasse a sua condição mais humana.
Também ele aprendera a falhar.
Nessa manhã, os alunos chegaram carregados de respostas.
As máquinas trouxeram perguntas novas.
E o mais estranho é que o exame começou a interrogar quem o vinha responder. Pela primeira vez, a nota parecia depender menos do estudo e mais da velocidade com que a internet respirava.
No lugar das questões de Matemática ou de Português, apareceram frases sem rosto:
— Erro de ligação.
— Sessão expirada.
— Tente novamente mais tarde.
Havia estudantes diante do ecrã como quem reza diante de um santo recente, padroeiro das redes sem falhas. Outros aguardavam em silêncio, esse lugar onde a esperança se senta quando já não sabe o que fazer.
O mérito tinha passado a depender não apenas do estudo, mas também do humor secreto dos servidores, essas criaturas escondidas em salas frias que, pelos vistos, deixaram de exigir apenas um rigoroso controlo térmico para não suarem e passaram também a reclamar os seus dias de cansaço.
Enquanto isso, o velho papel esperava. Aprendeu o ofício da espera muito antes dos homens inventarem a pressa.
Ficou ali, quieto, pousado sobre a memória do mundo, como um velho aldeão sentado à sombra de um chaparro. Não ria da modernidade. Também não a condenava. Via-a passar com a serenidade de quem sabe que há caminhos que precisam primeiro de se perder para encontrarem o destino.
Tinham-no acusado de lentidão e declarado ultrapassado.
Mas ele nunca precisou de palavra-passe para existir. Nunca exigiu atualizações. Nunca interrompeu o pensamento para instalar uma nova versão de si próprio.
Bastava-lhe ser papel. E talvez fosse justamente essa a sua extravagância. Continuar fiel àquilo que era.
Hoje acredita-se que a palavra “digital” possui virtudes quase místicas. Como se bastasse mudar o nome das coisas para lhes mudar a natureza.
Se um problema é lento, digitaliza-se. Se continua lento, cria-se uma plataforma.
Se a plataforma tropeça, entra em stress, inventa-se outra para explicar a queda da primeira.
Depois reúne-se uma comissão que estudará, com toda a serenidade burocrática, as vantagens da plataforma seguinte.
E eis que a burocracia também aprendeu a usar eletricidade. Antes pedia uma assinatura. Agora pede um código enviado para o telemóvel. Mudou de roupagem, mas continua a ser a mesma criatura lenta, alimentada a formulários e esperas.
No final, é garantido que o episódio servirá para retirar ensinamentos.
É uma frase curiosa. Neste país, os erros possuem um estranho talento para renascer sob a forma de experiência. Nunca envelhecem.
Os estudantes, esses, obrigam-se a acertar à primeira. Não têm esse privilégio de errar.
Erram uma vez. E a falha passa a morar no boletim.
Talvez um dia os exames não avaliem apenas os alunos. Talvez perguntem também aos cabos se estavam atentos, aos servidores se estudaram, às plataformas se fizeram os trabalhos de casa e aos decisores se distinguiram inovação de ilusão.
Até lá, permanece entre nós uma tecnologia antiga.
Habita os estojos. Viaja nos bolsos. Envelhece sem fazer barulho.
Chama-se lápis.
Nunca perdeu a ligação ao mundo. Talvez porque a madeira conheça segredos que o silício ainda anda a aprender.
E a borracha continua a ser esse discreto milagre que corrige os erros sem precisar de assistência técnica, de atualizações ou de fé.
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