Há modas que passam. Outras instalam-se de forma tão profunda que deixam de ser reconhecidas como modas e passam a parecer inevitáveis. O individualismo consumista e competitivo é uma delas. Não se apresenta como uma ideologia, mas como um modo “natural” de viver: competir, destacar-se, acumular, consumir, vencer. A linguagem do mercado invadiu quase todos os espaços da existência. Hoje fala-se de “capital humano”, de “marca pessoal”, de “performance”, de “empreendedorismo de si”. Até as relações humanas parecem medir-se pela utilidade e pelo retorno que proporcionam.
Esta cultura do “eu” não surgiu por acaso. Foi sendo construída por um modelo económico e social que transformou o cidadão em consumidor e a comunidade num conjunto de indivíduos em permanente concorrência. A publicidade promete felicidade através da compra; as redes sociais recompensam a visibilidade e a comparação; o sucesso é frequentemente apresentado como mérito exclusivo de quem o alcança, ignorando as condições de partida, os privilégios e as desigualdades estruturais.

Jurista
Nenhuma sociedade prospera quando o 'eu' deixa de reconhecer que só existe plenamente através do 'nós'
O problema não está na ambição, no mérito ou no desejo legítimo de melhorar a própria vida. O problema começa quando estes valores ocupam todo o espaço e expulsam outros igualmente essenciais: a cooperação, a solidariedade, o compromisso cívico, a responsabilidade perante os mais vulneráveis. Quando a competição se torna o princípio organizador da sociedade, o outro deixa de ser um semelhante para passar a ser um concorrente.
É precisamente neste contexto que a educação para os direitos humanos, para a justiça social, para a igualdade e para a inclusão parece perder centralidade. Não porque tenha desaparecido dos currículos ou dos discursos oficiais, mas porque deixou de ocupar um lugar prioritário no imaginário coletivo. Exige-se à escola que prepare jovens para o mercado de trabalho, para a inovação tecnológica e para a competitividade global — objetivos importantes, sem dúvida. Mas quem os prepara para reconhecer a dignidade de quem pensa diferente? Para compreender as causas da pobreza? Para combater a discriminação? Para defender a democracia quando ela é posta em causa?
A cidadania não é um conteúdo acessório. É a condição de sobrevivência de uma sociedade democrática. Os direitos humanos não são um luxo para tempos de prosperidade; são o fundamento da convivência em tempos de conflito. A justiça social não é uma concessão ideológica, mas um requisito de estabilidade. E a inclusão não é um gesto de benevolência, mas o reconhecimento de que nenhuma comunidade se realiza deixando parte dos seus membros para trás.
Paradoxalmente, quanto mais interdependente se torna o mundo, mais somos incentivados a acreditar que basta cuidarmos de nós próprios. As alterações climáticas, as migrações, a inteligência artificial, as guerras ou as crises económicas demonstram precisamente o contrário: os grandes desafios do século XXI não têm soluções individuais. Exigem cooperação, instituições fortes e cidadãos capazes de pensar para além dos seus interesses imediatos.
Talvez o maior sinal dos nossos tempos seja este: investimos cada vez mais na formação de profissionais competitivos e cada vez menos na formação de cidadãos conscientes. Produzimos excelentes currículos, mas nem sempre cultivamos consciência ética. Ensinamos a competir, mas esquecemo-nos de ensinar a cuidar.
A questão, por isso, não é escolher entre sucesso individual e compromisso coletivo. Uma democracia saudável precisa de ambos. O verdadeiro progresso mede-se não apenas pela riqueza que produz, mas pela capacidade de garantir dignidade, igualdade de oportunidades e participação a todos os seus cidadãos.
Se o individualismo consumista continua a estar na moda, talvez seja tempo de devolver prestígio a uma ideia aparentemente antiga, mas profundamente revolucionária: nenhuma sociedade prospera quando o “eu” deixa de reconhecer que só existe plenamente através do “nós”.
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