Há preços que já não sobem. Desaprendem a gravidade. Criam asas.
O combustível foi um deles. Primeiro caminhava arrumadinho ao lado das notícias. Depois começou a correr à frente delas. Hoje nem espera pelo petróleo. Antecipa-lhe os passos, como se adivinhasse o medo antes de o medo acontecer.
Dizem que o barril desceu. Talvez tenha descido. Mas o preço, esse, não conhece o verbo descer. É uma palavra que nunca ninguém teve a paciência de lhe ensinar. Vive convencido de que o céu é logo acima do próximo cêntimo.
E nós, criaturas de rodas e destinos, obrigamo-nos a aprender outra geografia. O mapa já não mede quilómetros. Habituou-se a medir depósitos. Cada viagem começa por uma conta e termina numa renúncia. Ir e vir deixou de ser distância. Passou a ser orçamento.
As petrolíferas, essas ilustres detentoras da Pedra Filosofal, descobriram um milagre que escapou aos antigos alquimistas: transformar metais comuns em ouro. Se há guerra, cresce o preço. Se há paz, cresce a prudência. Se há tempestade, cresce a incerteza. Se há bonança… cresce o hábito. Porreiro, pá!
A política contempla o fenómeno com a serenidade das árvores muito velhas. Nem protesta nem sorri. Apenas deixa cair folhas de silêncio, como se o silêncio fosse uma forma especialmente elegante de governar.
Entretanto, o povo abastece. Sempre abasteceu. Continuará a abastecer. Há mesmo uma curiosa e estranha fidelidade entre a bomba e quem dela precisa. É um casamento onde só um dos noivos escolhe o valor da conta.
Talvez seja esta a mais moderna definição de esperança: aproximarmo-nos da mangueira do combustível acreditando que, desta vez, a surpresa será pequena. E sair de lá convencidos de que a surpresa apenas mudou de tamanho.
No fim, compreendi que o combustível não serve apenas para mover os automóveis. Afinal, ele move estatísticas, dividendos, discursos e resignações. O carro é apenas o mero detalhe mecânico dessa viagem.
No fundo, há algo de profundamente tranquilizador neste país: aconteça uma guerra, uma paz, uma crise, uma recuperação, uma subida ou uma descida do petróleo, existirá sempre uma constante que nunca falha. Na bomba de combustível, a esperança pode oscilar. O preço, esse, conhece sempre o mesmo caminho.
E, ainda assim, haverá quem tenha a ousadia de dizer que o mercado é livre. Deve ser. Tão livre que nunca olha para trás. Coitado, que pena que tenho de o ver obrigado a correr sempre para cima, onde o ar é mais raro e o bolso mais leve.
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