Portugal prepara-se para assistir esta quarta-feira, 12 de agosto, a um fenómeno que não se observava desta forma no país há mais de um século. O eclipse solar será parcial na esmagadora maioria do território continental, mas a ocultação do Sol ultrapassará os 90% em muitas regiões. Apenas uma pequena faixa no extremo nordeste do país ficará dentro da zona de totalidade.
A propósito do fenómeno, o Notícias ao Minuto colocou várias questões a Filipe Ferreira da Silva, professor do Departamento de Física da NOVA FCT, sobre o que acontece durante um eclipse, os cuidados necessários para o observar e as alternativas disponíveis para quem não conseguiu encontrar óculos próprios. Uma delas pode ser feita em casa com uma simples caixa de cartão.
Afinal, o que acontece durante um eclipse total?
Um eclipse total do Sol acontece quando a Lua passa entre a Terra e o Sol e os três astros ficam alinhados de forma a que a sombra da Lua seja projetada sobre uma determinada zona da superfície terrestre. “Um eclipse total do Sol acontece quando a Lua tapa por completo o Sol, sendo projetada na Terra a sombra da Lua. Para que tal aconteça, é necessário que a Lua esteja entre a Terra e o Sol.”
Só as regiões atravessadas pela sombra mais escura da Lua conseguem assistir à totalidade. É por isso que, mesmo num país relativamente pequeno como Portugal, a diferença entre estar dentro ou fora dessa estreita faixa pode significar passar de um eclipse total para um eclipse parcial, ainda que com 99% do Sol ocultado.
No eclipse lunar, o alinhamento é diferente. É a Terra que se posiciona entre o Sol e a Lua, impedindo que a luz solar chegue diretamente ao satélite. Filipe Ferreira da Silva recorda ainda outros fenómenos de ocultação, como o trânsito de Vénus diante do Sol ou a ocultação daquele planeta pela Lua.
Eclipses também ajudaram a mudar a ciência
A observação destes fenómenos teve importância em diferentes momentos da história da ciência. O professor da NOVA FCT recorda, por exemplo, as observações realizadas no século XVII pelo astrónomo dinamarquês Ole Rømer, que utilizou eclipses das luas de Júpiter para chegar a uma das primeiras estimativas da velocidade da luz.
Outro dos episódios mais conhecidos aconteceu em 1919, quando observações feitas durante um eclipse total na ilha do Príncipe e em Sobral, no Brasil, permitiram testar previsões da teoria da relatividade geral de Albert Einstein. Durante a totalidade, a luz intensa do disco solar desaparece durante alguns instantes, criando também condições especiais para observar estruturas próximas do Sol que normalmente ficam escondidas pelo seu brilho.
Um eclipse chegou a ser usado por Cristóvão Colombo
Filipe Ferreira da Silva recorda ainda um episódio histórico envolvendo Cristóvão Colombo. Durante uma permanência forçada na Jamaica, Colombo e os seus homens dependiam da população local para obter alimentos, mas essa ajuda acabou por diminuir. Sabendo antecipadamente que ocorreria um eclipse lunar, Colombo terá utilizado o fenómeno para convencer os habitantes de que o desaparecimento da Lua seria um sinal de castigo caso não retomassem a ajuda à tripulação. “Disse-lhes que se não colaborassem na ajuda aos tripulantes, teriam um castigo de Deus e, como prova disso, a Lua desapareceria.”
O episódio tornou-se um dos exemplos históricos mais conhecidos da utilização do conhecimento astronómico numa época em que a previsão destes fenómenos estava longe de ser acessível à generalidade da população.
Escolha um local com o horizonte desimpedido
Para observar o eclipse desta quarta-feira, a localização também será importante. O fenómeno acontece ao final do dia, aproximadamente entre as 18h30 e as 20h30, com diferenças de alguns minutos consoante a região. Filipe Ferreira da Silva recomenda procurar um local com boa visibilidade na direção do Sol, evitando edifícios, montanhas ou outros obstáculos que possam esconder o astro quando este estiver já relativamente baixo no horizonte. As condições meteorológicas também terão influência. Uma camada persistente de nuvens junto ao horizonte poderá impedir a observação mesmo em regiões onde a percentagem de ocultação é elevada.
Olhar diretamente para o Sol pode causar danos graves
É na segurança que o professor deixa o alerta mais importante. Durante as fases parciais, olhar diretamente para o Sol sem proteção adequada pode provocar lesões graves nos olhos. Para observação direta devem ser utilizados óculos ou visores solares próprios conformes com a norma internacional ISO 12312-2. Óculos de Sol comuns, independentemente de serem muito escuros, não proporcionam proteção suficiente. A NASA e a American Astronomical Society fazem a mesma recomendação.
Há ainda uma diferença importante quando são utilizados equipamentos óticos. Câmaras, binóculos e telescópios precisam de filtros solares concebidos especificamente para esses aparelhos e colocados na parte frontal da ótica. Não é seguro apontar um destes equipamentos ao Sol sem filtro adequado, nem usar simplesmente os óculos de eclipse entre os olhos e uma lente.
Não encontrou óculos? Uma caixa de cartão pode resolver
Quem não conseguiu comprar óculos adequados não precisa necessariamente de desistir de acompanhar o eclipse. Filipe Ferreira da Silva sugere um método de observação indireta, no qual a pessoa vê uma projeção do Sol em vez de olhar diretamente para ele. Pode utilizar-se, por exemplo, uma caixa de sapatos. Deve ser feito um pequeno orifício com uma agulha ou um prego numa das faces da caixa. Noutra zona deve abrir-se um segundo buraco, maior, que servirá para observar o interior.
O pequeno orifício é apontado na direção do Sol, sem olhar através dele. A luz entra na caixa e projeta a imagem do disco solar na face oposta, que pode ser revestida com uma folha branca para facilitar a visualização. A NASA também recomenda métodos deste género, conhecidos como projeção por orifício ou pinhole projection, como alternativa segura quando não existem óculos próprios.
À medida que a Lua avançar diante do Sol, a projeção dentro da caixa permitirá acompanhar a alteração da forma do disco solar sem expor diretamente os olhos à radiação.
Só há uma exceção à utilização de proteção
Em praticamente todo o território português, o eclipse será parcial do princípio ao fim e, por isso, não haverá qualquer momento em que seja seguro olhar diretamente para o Sol sem proteção adequada. A única exceção ocorre para quem estiver efetivamente dentro da estreita faixa de totalidade: durante os breves instantes em que a Lua esconder completamente a superfície brilhante do Sol, a observação direta pode ser feita sem filtro. Assim que qualquer parte do disco solar reaparecer, a proteção deve voltar imediatamente a ser utilizada.
Para todos os restantes observadores, mesmo em locais onde a ocultação chegue aos 98% ou 99%, a regra não muda: os óculos próprios ou outro método seguro de observação devem ser utilizados durante todo o fenómeno.
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