
Os episódios de violência têm-se multiplicado nas últimas semanas nos principais locais de diversão noturna de Lisboa, como o Bairro Alto, Cais do Sodré e Santos. Foram já registados a morte de um homem a tiro, esfaqueamentos e muitas agressões, algumas delas registadas em vídeos que circulam nas redes sociais. A PSP tem reforçado o efetivo nestes locais da capital mas os comerciantes contactados pelo Expresso consideram que o número de operacionais não é suficiente para o grande aglomerado de pessoas que se juntam nas ruas daqueles bairros, sobretudo nas noites de sexta e sábado.
“A polícia só aparece depois da confusão já estar instalada e de os agressores terem desaparecido de circulação”, critica um empresário da noite do Bairro Alto, sob anonimato. Em todo o caso, elogia o facto de as forças de segurança já controlarem melhor as festas improvisadas, com música projetada por colunas de som no meio da rua e a venda ilegal de garrafas de álcool.
O Expresso sabe que a violência na noite de Lisboa tem sido motivo de várias reuniões e relatórios internos da PSP. Uma fonte da divisão de investigação criminal daquela polícia aponta duas causas principais para o fenómeno: a luta de pequenos gangues pelo controlo do território do tráfico de droga e de grupos criminosos que aproveitam os ajuntamentos para realizar roubos; e o facto de o desconfinamento ter levado a um grande aglomerado de pessoas nas ruas, sedentas de diversão. “Durante a pandemia muitos jovens estiveram fechados em casa muito tempo e tentam agora compensar esse tempo perdido e os ânimos por vezes exaltam-se.”
Um jovem de 18 anos que costuma frequentar estes locais de diversão noturna conta, no entanto, que também por vezes a polícia se excede na sua atuação. “Na última sexta-feira, à 1h30, em Santos, a PSP fez um cordão de segurança e começou a avançar no sentido de retirar as pessoas do largo. No final acabaram por empurrar e a dar bastonadas e um amigo meu levou com gás pimenta sem ter feito nada.” O facto de as discotecas ainda não terem aberto portas é apontado como um dos motivos que levam os mais noctívagos a ficarem em magotes nas ruas até altas horas da madrugada.
FATORES DE RISCO
Para o sociólogo Alberto Peixoto, o excesso de pessoas concentradas de forma desregulada “confere anonimato e um sentimento de impunidade”. Neste contexto “compreende-se a prevalência de comportamentos desviantes”.
Já o psicólogo clínico e forense Mauro Paulino entende que ainda que se possa admitir que o levantar das restrições resulte agora num extravasar de comportamentos, há outros fatores que contribuem para esta escalada de violência, evoluindo de agressões casuais para homicídios.
“Estamos a falar de fatores como o álcool em excesso, o consumo de estupefacientes e a idade dos envolvidos, que leva também a fenómenos grupais cuja linguagem para a afirmação ou compensação social é a violência. Só aqui temos vários dos fatores de risco para o comportamento criminal e violento.”
O psicólogo Miguel Ricou frisa que o confinamento significa, para os mais jovens, riscos acrescidos. “Ficaram mais sujeitos aos problemas psicológicos dos pais e aos problemas de adição dos mesmos, quando os havia. Estiveram mais sujeitos aos maus tratos e negligências, uma vez que a proteção da escola desapareceu ou diminuiu. O ensino não foi provavelmente tão rentável e existiram situações de aumento de desemprego. Todos estes fatores são de risco, potenciam problemas emocionais que facilitam comportamentos de descompensação, como pode ser exemplo a violência.”
Miguel Basto Pereira, psicólogo do ISPA — Instituto Universitário, defende que é preciso encontrar soluções que previnam a concentração de jovens em festas de rua após o fecho dos estabelecimentos comerciais, uma vez que ao álcool, às drogas e às regras ambíguas, “junta-se uma completa falta de supervisão social, e um maior sentimento de impunidade”.
Notícia exclusiva do parceiro do jornal Postal do Algarve: Expresso
















