Só mesmo os americanos, especialistas numa mistura de marketing de tabernas, ficção científica e prémios Nobel, para inventarem uma expressão muito popularizada como “não há almoços grátis”. Quem diria que a oferta de uma refeição grátis a quem adquirisse pelo menos uma bebida, se transformaria num dos pilares do pensamento económico moderno? Verdadeiramente, a comidinha não era nada de borla, pois o elevado preço da vinhaça ou da cerveja suplantava de longe o custo do cozinhado. Ainda por cima, o abuso do sal, mais fermentava o consumo de líquidos para abafar a secura. Se a esperteza apareceu no século XIX, e fez escola prática, foi o laureado e prémio Nobel em Ciência Económica – Milton Friedman – quem imortalizou a idéia dando-lhe título de livro em 1975 (“There’s No Such Thing as a Free Lunch”). Na sua simplicidade complexa, tratava-se de reconhecer que em cada oportunidade existe um custo associado, muitas vezes oculto, mas que alguém terá que pagar, em última análise os contribuintes e os próprios beneficiários da graciosidade. Ou seja, quando se pretende obter algo, ou se aceita passivamente uma oferta, está-se a abdicar de outra coisa como tempo, dinheiro ou recursos. Nada é verdadeiramente gratuito, e até aquilo que parece oferecido tem factura associada ou contrapartida esperada.
Quando as autarquias esbanjam para lá dos limites do razoável em espectáculos e eventos a propósito de tudo e de nada, em iluminações e fogo de artifício, estão a despender o dinheiro público em actividades de animação que, porventura, seria mais útil e necessário na manutenção de infraestruturas básicas, no parque habitacional público ou no apoio social a estratos mais vulneráveis. Não se trata de cortar radicalmente na vertente da animação cultural e recreativa. Trata-se de recuperar o sentido de equilíbrio e o bom senso, naquilo que já passou para as raias do exagero. Quando um gestor público aceita prebendas e simpatias de alguém com interesses económicos nas suas decisões, tem de saber separar as relações públicas e a cordialidade do contacto pessoal, da independência com que deve ministrar o seu mandato, no qual deve prevalecer o interesse da comunidade. Lá está! Há que ter presente que “não há almoços grátis”. Existe quase sempre uma intenção subjacente nesse tipo de aproximações. Do outro lado do exagero, há quem entenda erradamente esta conflitualidade potencial.
Conheci um antigo presidente da Câmara Municipal de Faro que levava tão a peito a sua concepção de independência dos interesses que gravitavam à volta da autarquia, que não aceitava que lhe pagassem um cafezinho sequer, ao balcão de um estabelecimento qualquer. Encontrei-o algumas vezes a almoçar sozinho em restaurantes da baixa da capital. Rigorosamente sozinho, numa daquelas mesinhas quadradas com toalha branca de papel em cima. Era confrangedor, e uma cena pouco usual em quem desempenha cargo de tal importância. Foi de facto um tipo íntegro, e nunca ouvi falar dele em sentido ético desabonatório. Mas assim se foi isolando progressivamente. Até acabar a perder as eleições. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, sempre disse o povo.
As novas gerações não conheceram o Algarve deprimido, subdesenvolvido, afastado, isolado e atrasado até ao advento da actividade turística na Região, nos começos da década de sessenta do século passado. Talvez desconheçam até o papel relevante que o figo, um dos frutos secos tradicionais do Algarve, teve no matar da fominha de tantos algarvios, famílias inteiras. Quantos trabalhadores partiam para a jorna de madrugada, com uma mão cheia de figos na algibeira para enganar a barriga o dia inteiro. O sequeiro dominava na agricultura de minifúndio, o regadio ainda era uma miragem. Não vale a pena ignorar: sem o Turismo, o Algarve não era o que é hoje. Mas, também aqui, “não há almoços grátis”. Pagou-se, e pagar-se-á uma factura pesada com a ocupação intensiva do território (sobretudo na faixa litoral), de forma desordenada e desequilibrada. A maioria da população residente está cada vez mais longe de acompanhar os custos da habitação, dos prestadores de serviços domésticos, até do preço do chamado “peixe de mar” ou do marisco capturado localmente.
O turismo de massas derivado do excesso de ocupação urbanística torna o movimento de pessoas e veículos um inferno na época alta. Corre-se sempre atrás do prejuízo, na busca de água, nas estradas, nas estruturas da Saúde, no reenchimento das praias, na recolha do lixo. Pelo caminho, destroem-se zonas ambiental e paisagisticamente relevantes, e perde-se um palmo de identidade cultural em cada dia que passa. Só para não repetir Friedman, deixem-me gritar à minha maneira: “já não há bitoques grátis!”… se é que alguma vez os houve.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: O desaparecimento da alegria | Por Mendes Bota















