Vão-se tornando cada vez mais raros os momentos de alegria pura, sadia e espontânea, tal é o ambiente negativo, sombrio, pessimista, que lentamente se foi apoderando do nosso quotidiano, obliterando tudo aquilo de bom e positivo que ainda vai acontecendo e que é muito. O que deveriam ser sensações de felicidade, bem-estar e satisfação, rapidamente ficam escurecidas pelo contraponto da descrença, do medo, da incerteza. A alegria pelo nascimento de um filho, é logo acompanhada por mil interrogações acerca do futuro que lhe estará reservado. Mesmo as risadas arrancadas a ferros pelos palhaços da moda, são-no sempre à custa de denegrir os outros com piadas de escárnio e maldizer, porque são gordos ou baixotes, manetas, carecas, feios ou burros, e por aí fora, que no manual do destrate [bullying] não faltam alvos predilectos.
Apreciar a pureza do ar que se respira, logo traz à tona do pensamento quão poluído vai o planeta. O saborear de uma refeição passou a conviver com os horrores da guerra e da destruição, que passam na televisão da mesa ao lado. Enche-se o estômago à frente das imagens de milhões de pessoas a morrer de fome, e acha-se isto normal. Já não incomoda. Não há crescimentos económicos, nem salariais, que satisfaçam, porque logo vem o papão da inflação e tudo come. Recebe-se uma notícia boa, logo submergida num oceano de notícias más. É cada vez mais difícil encontrar alguém que se diga satisfeito com a vida, mesmo que disponha hoje de muito mais comodidades do que alguma vez sonhou.

O protesto contra tudo e contra todos, matou aquela alegria natural da vida simples, que reduzia o stresse, melhorava o sistema imunológico e fortalecia os laços sociais. A política está em tudo, numa sociedade dividida e radicalizada. Estamos cada vez mais stressados, vulneráveis a qualquer bicho e desconfiados uns dos outros. A responsabilidade da comunicação social neste estado das coisas e dos espíritos é cada vez mais notória, fazendo jus ao princípio de que a verdadeira notícia é quando um homem morde o cão, e não o contrário. Esta, não vende. O bem, não vende. O horror, o abjecto, o sangue e o alguidar, sim. Olhando para os títulos da primeira página de uma edição da semana passada tirada ao calhas do jornal diário de maior tiragem em Portugal, o que lemos? “Guerra no Médio Oriente: Trump ameaça aniquilar civilização.” – Temos um louco ao leme da maior potência militar do mundo, e estamos todos a sofre na pele. “PSD, Chega e PS dividem juízes do Constitucional”. – O tribunal supremo dos supremos ter juízes indicados por partidos políticos não parece ser lá muito boa ideia para a saúde da independência do poder judicial. “Preço das casas dispara 180% – Valores quase triplicam em dez anos – Portugal é o segundo país da Europa onde a habitação mais encareceu entre 2015 e 2025”. – Esta é uma realidade desgraçada que afecta uma parte substancial da população. Qual é a graça? “Sporting 0 – Arsenal 1 – Leão perde nos descontos”. – Perder já é mau, perder no último minuto é muito mais doloroso. “À imagem de Farioli no FC Porto, Mourinho quer revolução no Benfica”. – Face aos resultados de uma época falhada, já nem três revoluções resgatam a tristeza da claque maior dos maluquinhos da bola. “Juiz investigado com reforma de 7.504 euros”. – Já nem nos juízes se pode confiar? “Apanhado: visita sem perna mete telemóveis nas cadeias”. – O sistema prisional português parece um queijo flamengo. Todo o tipo de mercadoria lá entra e sai, seja por que buraco for. “Acidente doméstico deixa Ventura com olho negro”. – Pode não se gostar do Andrézito, mas é angustiante não se saber o que causou a coloração por baixo da pálpebra. Violência doméstica? Ataque à má-fé? Queda na escada? “Artemis II: Missão da NASA mostra Terra vista do lado oculto da Lua”. – Deve estar no fim da lista de preocupações dos portugueses. Será bom, será mau? O tempo dirá. Também na primeira página da última edição do semanário mais lido em Portugal, o que lemos ainda é pior: “Ninguém sabe quando vão descer os preços dos combustíveis”. – Pois é. Ninguém sabe. Sabe-se, isso sim, quem ganha muito dinheiro com este sobre e desce. “Governo agrava multas por álcool, velocidade e manobras perigosas”. O que se passa nas estradas transformou-se numa guerra civil. Mortos, feridos e estropiados. Anda muita gente louca à solta com um volante nas mãos. “UGT diz não à Reforma Laboral”. Negociar o quê, com quem não quer reformar nada? Que folhetim! “Duas pessoas detidas por dia na Páscoa por violência doméstica”. – Este flagelo social não dá mostras de abrandar. “Câmara de Coimbra quer mais construção em zona de cheias”. Depois, quando o Mondego lhe dá para transbordar não se queixem das casinhas que as cheias tudo levam. Há autarquias que nunca aprendem. “Amadora-Sintra perdeu 50% dos médicos da Urgência”. Desde que em 2009 acabaram com uma PPP que funcionava perfeitamente, aquele hospital nunca mais teve conserto. “Vítimas de abuso criticam cortes da Igreja”. O que começou por ser um escândalo gigantesco e uma mancha indelével para a instituição religiosa predominante em Portugal, foi encurtando de corte em corte, até à vergonhosa indemnização final. Qual a satisfação que se recolhe destes títulos todos? Nenhuma! Só acentuam um ambiente depressivo. E nas televisões o panorama não é melhor. “A cada dia dá Deus a dor e a alegria” – diz o ditado popular, cada vez mais desequilibrado. A dor substitui a alegria, como a salinização dos lençóis de água no Algarve.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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