Sempre disse, e continuarei a dizer, que o que é demais não presta. Enjoa. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem oito, nem oitenta. No meio é que está a virtude, é o caminho mais seguro, e a moderação e o equilíbrio são a chave da sabedoria. Fora eu chinês, e acrescentaria a paciência. O exagero nunca é bom. Cada coisa no seu tempo, nem demasiado, nem demasiado pouco. Nem a mais, nem a menos. O segredo está na medida certa. O equilíbrio faz a felicidade. E por aí fora nos compêndios da chamada sabedoria popular, com um certo cheiro a mofo e estagnação. Claro que há quem goste de viver no fio da navalha, de sentir adrenalina em cada momento da sua vida. De arriscar no tudo ou nada, e prefira o aguçado das pontas, à redondez do centro. Vem esta sopa de letras feita de cautela e caldos de galinha, num mundo acelerado e perigoso de gente que virou enlouquecida, sem noção nem sensatez, entre o vício e a vaidade, que parecem duas coisas, mas se entrelaçam numa só, que tresanda a propaganda, publicidade ou manipulação. Estamos em pleno reinado das redes sociais, da vulgarização das novas tecnologias, usadas e ao alcance de qualquer pessoa minimamente dotada, e onde não poderia faltar, como seria de esperar, a classe política, qualquer que seja o partido, qualquer que seja o País, embora uns pareçam mais adiantados do que os outros.

Certamente o leitor já reparou que, nos últimos tempos, se tem intensificado de forma exponencial uma rotina mais própria de atores de cinema do que de políticos responsáveis: os vídeos propagados por figuras públicas que, em nome da transparência ou do contacto com o povo, acabam por expor uma vaidade desmedida e uma busca incessante por reconhecimento medido em “likes”, “seguidores”, “amigos”. Essa moda de produzir vídeos a propósito de tudo e de nada, com palco montado em qualquer esquina ou vão de escada, onde se mistura a aparente humildade e proximidade popularucha com a exibição de conquistas pessoais e ações políticas, tornou-se uma espécie de espetáculo em episódios com uma frequência frenética quase impossível de acompanhar. É ver líderes locais, de municípios ou de freguesias, muitos deputados e alguns governantes até, que sucumbiram à tentação de ir na onda. Chef Isaltino então, é o grão-mestre desta enorme confraria, onde a noção do ridículo parece perdida irremediavelmente. No entanto, é preciso questionar: até que ponto essa exposição se mantém no âmbito do serviço público ou se transforma numa peça de autopromoção exacerbada? Os políticos parecem querer apresentar-se cumulativamente como atores, realizadores e produtores de cinema, criando uma narrativa onde eles próprios se colocam no centro, muitas vezes esquecendo o seu papel de representantes e servidores da sociedade. Essa filmografia política, repleta de cenas ensaiadas e discursos pré-cozinhados, mais parece uma tentativa de autopromoção do que uma comunicação genuína com a cidadania.
Esse excesso de vídeos, mais tarde ou mais cedo, vai acabar por perder a sua eficácia, transformando-se numa fonte de irritação e saturação, tal é o excesso de comunicação que entra pelo telemóvel dos cidadãos adentro, parecendo mais praga do que bênção. A sensação de que tudo se tornou uma peça de teatro, onde a autenticidade se perde no palco do exibicionismo, provoca um sentimento de cansaço no público. Afinal, o eleitorado deseja ouvir propostas sérias e autenticamente interessadas nos problemas coletivos, não exibições de imagem ou performances mediáticas que visam apenas engrandecer o ego de quem as produz e apresenta. A aceitação por parte do público desta cultura de vídeos autocêntricos é limitada. Há que saber pesar o que é fundamentalmente importante, do que é acessório e quinquilharia política. Cada vez mais, os cidadãos buscam ações concretas e discursos sinceros, e não cenas que parecem mais roteiros para um filme do que mensagens de compromisso. O que é demais não presta.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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