“O que é que acontece?” Acontece que, de cada vez que uma crise qualquer bombardeia o mundo, o preço do crude explode, e isso reflecte-se de imediato na factura que o inocente cidadão paga nos postos de combustível. É logo! A comunicação social faz soar as trombetas do aumento que aí vem, e aquilo é limpinho. Não falha nada. A espada inflaccionária abate-se impiedosamente sobre os hidrocarbonetos, incendiando tudo o que mexe na economia e nos bolsos do contribuinte. Dos supermercados às mercearias, das fábricas aos transportes, dos campos às cidades, do gás à electricidade. Uma espiral imparável, regra geral sem retrocesso. Um vírus especulativo quantas vezes sem outra justificação para lá do oportunismo. “O que é que acontece?” Nada! Ou, se quisermos, tudo!
Semanas mais tarde, quando a goela do crude acalma a irritação e os mercados lhe baixam a crista, essa acalmia leva longas semanas a reflectir-se no preçário das estações de serviço. No entretanto, tudo o resto ficou alvoroçado, e jamais regressa ao ponto de partida. “O que é que acontece?” Nada! O processo repete-se impassível. O lobby dos produtores de petróleo e grossistas da energia engorda com lucros pornográficos. Ganha na subida e ganha na descida. O Estado enche a pança de impostos. O povinho aperta o cinto. Assim se fecha o círculo. “O que é que acontece?” Nada! Siga o baile. Este pode ser apenas um dos múltiplos exemplos para os quais se adopta esta muleta linguística do “o que é que acontece?”, um marcador discursivo que lubrifica a engrenagem do raciocínio em tempo real. Torna-se um vício que toma conta da conversa de muitas pessoas, demasiado repetitivo e enfadonho para quem ouve, porque o cérebro trabalha a uma velocidade diferente das cordas vocais. É um intervalo que preenche o silêncio, ganha tempo, já se sabe o que se vai transmitir, mas a frase seguinte ainda está a ser processada. Mantém o ritmo e confere ênfase para algo importante que vem a seguir. Ao contrário da escrita, que é planeada, a fala é espontânea e linear, o que exige ferramentas de gestão do tempo.
Na Grécia e na Roma da antiguidade, a oratória era uma arte, e já então se usavam estas muletas: “na verdade” (do latim in veritate), “ou seja” (equivalente ao id est). A expressão “o que é que acontece” terá começado na segunda metade do século XX. Sinceramente, só me apercebi dela de há quinze anos para cá. Pelo caminho engoliu o “está a ver?”, “percebes?”, “tipo assim?”, “prontos!”, “na verdade!”, “sinceramente!…”, “ou seja”, “épá!…”, “com certeza!”, “repare”, olhe!”, até à laia de resumo e conclusão, “no fundo!”. Há aqui uma lógica explicativa e validativa, uma preocupação de hesitação, enfatização ou conclusão precipitada. Pode ser de continuidade, espanto, concordância ou chamada de atenção. Com felicidade constato que permaneci imune à moda social actual da frase feita, mas lá que dá muito jeito, dá. José Sócrates espatifa todos os dias a credibilidade da Justiça portuguesa. É uma penosa evidência que engolimos com espasmo de vómito. “O que é que acontece?”. Nada! Até à prescrição total e à impunidade final.
É irritante até à náusea o volume crescente da publicidade nos programas televisivos, nos espaços públicos, no tsunami de influenciadores um pouco por todo o lado para onde se vire o cidadão, consumidor e contribuinte, obrigado a engolir o que não quer, sem regulador que o proteja. “O que é que acontece?”. Nada! É pagar e andar, ou largar. A construção clandestina prossegue num ritmo avassalador, perante a inércia das autarquias e do Estado central. “O que é que acontece?” Nada! A favelização de Portugal segue como se subitamente tivesse deixado de haver leis, ordem, respeito. A betonização contínua da frente litoral do Algarve está imparável, destruindo espaços naturais e belezas paisagísticas de forma irreversível, que só serão recordados em postais ilustrados dos dois séculos passados, perante a cumplicidade de quem manda e o triunfo da ganância. “O que é que acontece?”. Nada! Ou, se quisermos, tudo! Nada, porque não há uma voz que se levante contra este estado inclinado das coisas da Região. Tudo, porque o destino está marcado e assim acontecerá. Entre o tudo e o nada, não há nenhum “cliché” linguístico, nem fórmula de transição, que mantenha vivo o fluxo de uma narrativa de equilíbrio e bom senso.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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