O projeto de um megatúnel subaquático a fazer ligação fixa entre Espanha e Marrocos através do Estreito de Gibraltar continua a ser uma das obras mais ambiciosas alguma vez pensadas entre a Europa e África. Depois de décadas de estudos, o que existe hoje, de forma oficial, é uma nova fase de atualização técnica, cooperação bilateral e investigação geológica, mas não ainda uma decisão final de construção.
Com base nas fontes oficiais, retrato mais rigoroso é este: Espanha e Marrocos mantêm o projeto ativo, a engenharia de base continua a ser a de um túnel ferroviário sob o Estreito, e os dois países reforçaram em 2025 a cooperação técnica em torno da digitalização, da engenharia e dos estudos associados ao enlace fixo.
Ao mesmo tempo, Espanha continua a financiar a atualização do anteprojeto e novas campanhas de investigação do fundo marinho, de acordo com o Boletín Oficial del Estado (BOE).
Projeto antigo que voltou a acelerar
A base política e institucional desta ligação não é nova. O projeto assenta no acordo de cooperação firmado entre Espanha e Marrocos em 1980 sobre o enlace fixo Europa-África através do Estreito de Gibraltar, reforçado depois por um acordo adicional de 1989 e pelo Tratado de Amizade, Boa Vizinhança e Cooperação de 1991, que voltou a incluir este dossiê no quadro da cooperação entre os dois países.
O relançamento mais recente ganhou expressão política com a 43.ª reunião do Comité Misto hispano-marroquino, realizada em abril de 2023. Já em abril de 2025, o portal oficial maroc.ma noticiou que Rabat e Madrid reforçaram a parceria em matéria de digitalização e engenharia ligada aos estudos do projeto, através de novas convenções de cooperação.
O que está previsto no traçado
Segundo a página oficial de engenharia do projeto da sociedade mercantil do setor público estatal espanhol SECEGSA, a solução de base liga Punta Paloma, em Tarifa, a Malabata, na zona de Tânger.
A mesma fonte oficial indica que o megatúnel subaquático terá uma distância de cerca de 42 quilómetros entre terminais, um traçado marítimo de cerca de 28 quilómetros e profundidades máximas na ordem dos 475 metros.
informação oficial mais recente da SECEGSA descreve a variante como dois túneis ferroviários, sem túnel intermédio autónomo de serviço e segurança, sublinhando que essa solução ajudaria a reduzir custo e tempo de execução. Por isso, não é totalmente rigoroso apresentar hoje o projeto oficial como um sistema já fechado de três túneis paralelos.
Maior desafio continua no fundo do Estreito
O ponto mais sensível do projeto do megatúnel subaquático continua a ser o Umbral de Camarinal, uma área central do Estreito que permanece no centro das campanhas técnicas.
No acordo publicado no BOE em dezembro de 2025, SECEGSA e CSIC formalizaram uma campanha de investigação do fundo marinho precisamente nessa zona, com o objetivo de melhorar o conhecimento da batimetria, da geomorfologia e das formações geológicas superficiais e, a partir daí, aperfeiçoar o modelo geológico tridimensional do Estreito.
Esse mesmo documento oficial prevê uma campanha oceanográfica, análises laboratoriais, processamento de dados e elaboração de novos perfis geológicos, com um orçamento de 553.187,38 euros suportado por SECEGSA nos exercícios de 2025 e 2026. A duração prevista do acordo é de 16 meses a partir da sua publicação no BOE.
O que está oficialmente em curso
No plano financeiro e administrativo, uma das peças centrais continua a ser a atualização do anteprojeto primário do enlace fixo. O BOE de maio de 2023 publicou o convénio que enquadra a transferência de recursos do PRTR para SECEGSA, num total de 2,3 milhões de euros, precisamente para essa atualização, apresentada como passo necessário para colocar o projeto em condições de avançar para futuras fases construtivas.
Além disso, a documentação oficial indexada da própria SECEGSA mostra que, em dezembro de 2024, foi enquadrado um novo estudo complementar com a Herrenknecht, no valor de 296.400 euros, com conclusão prevista para junho de 2025, no âmbito da atualização do projeto. Em paralelo, a SECEGSA continua a referir que essa atualização global foi encarregada à INECO com financiamento dos fundos NextGenerationEU.
O que ainda não está fechado
Apesar deste novo impulso, as fontes oficiais consultadas não mostram uma aprovação definitiva da obra nem fixam, por si só, um calendário fechado para o arranque da construção. O que está formalmente documentado é outra coisa: atualização do anteprojeto, reforço da cooperação entre Espanha e Marrocos, estudos de engenharia e novas campanhas geológicas no terreno e no fundo marinho.
Isso significa que o projeto voltou claramente ao centro da agenda técnica e bilateral, mas continua numa fase preparatória de elevada exigência. A travessia fixa entre os dois continentes está mais viva do que esteve durante muitos anos, só que ainda não passou da etapa dos estudos oficiais para uma decisão final de construção.
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