Na Europa, os grandes aeroportos já não são pensados apenas como pontos de partida e chegada. Cada vez mais, estes projetos são desenhados como centros onde avião, comboio e estrada se cruzam no mesmo local, numa lógica de mobilidade mais rápida e integrada. É precisamente nesse modelo que a Polónia quer apostar com a sua nova infraestrutura, um mega-aeroporto que voltou a ganhar impulso e que pode alterar o peso do país no mapa dos transportes europeus.
O futuro mega-aeroporto polaco, conhecido no projeto como CPK e promovido também sob a marca gestora Port Polska, está previsto para a zona entre Varsóvia e Łódź e deverá arrancar com capacidade para 34 milhões de passageiros por ano, com possibilidade de expansão para 44 milhões, tornando-se um dos maiores da Europa.
Nas projeções mais recentes preparadas pela IATA para a gestora do projeto, a infraestrutura poderá ultrapassar 32 milhões de passageiros logo no primeiro ano completo de operação, em 2032, e superar a barreira dos 40 milhões até 2040.
Calendário revisto e investimento de grande escala
A versão atual do plano para este mega-aeroporto na Europa já não assenta nos números mais antigos que circularam quando o projeto foi lançado. Segundo a gestora oficial, o Conselho de Ministros polaco aprovou um Programa Plurianual 2024-2032 com um envelope total de 131,7 mil milhões de zlotys, cerca de 30,6 mil milhões de euros.
Desse montante, 42,7 mil milhões de zlotys, aproximadamente 9,9 mil milhões de euros, serão destinados diretamente à construção do aeroporto, enquanto 76,8 mil milhões de zlotys, cerca de 17,9 mil milhões de euros, financiarão a rede ferroviária associada, que deverá ligar o novo hub às principais cidades do país.
Já o Ministério das Infraestruturas da Polónia, no portal oficial gov.pl, indica que a decisão de localização do aeroporto foi emitida em janeiro do ano passado, que a construção do terminal está prevista para este ano e que a entrada em funcionamento continua apontada para antes do final de 2032, em paralelo com o primeiro troço da alta velocidade ferroviária entre Varsóvia e Łódź.
Em fevereiro deste ano, a própria Port Polska anunciou a abertura das propostas para as fundações profundas do terminal, um sinal claro de que o projeto entrou numa fase mais concreta de obra.
Terminal, pistas e dimensão do hub
Na frente aeroportuária, o desenho já está mais definido. O Ministério das Infraestruturas refere um terminal de passageiros com cerca de 450 mil metros quadrados na primeira fase e capacidade para processar até 11 mil passageiros por hora, enquanto a Port Polska detalha que a expansão foi pensada em duas etapas, primeiro para 34 milhões e depois para 44 milhões de passageiros anuais.
O plano oficial para este mega-aeroporto, desenhado para ser dos maiores da Europa, inclui ainda duas pistas paralelas de 3.800 metros, com possibilidade de crescimento posterior, e um terminal preparado desde início para ser ampliado sem bloquear a operação.
A mesma fonte oficial acrescenta que o projeto foi concebido para ter uma forte componente de tráfego de ligação, com 35% a 40% de passageiros em trânsito, o que mostra a ambição de o transformar num verdadeiro hub e não apenas num aeroporto de origem e destino.
Um aeroporto pensado para funcionar com comboios
A grande diferença deste projeto está na ligação entre modos de transporte. A gestora oficial diz que o aeroporto ficará integrado com uma estação ferroviária subterrânea e que até metade dos passageiros poderá chegar de comboio, com uma viagem estimada em cerca de 20 minutos desde o centro de Varsóvia.
Esse eixo ferroviário não se fica pela capital. O primeiro troço da linha de alta velocidade entre Varsóvia, novo aeroporto e Łódź deverá entrar em serviço com a abertura do aeroporto, enquanto os troços para Poznań e Wrocław continuam calendarizados para o fim de 2035. Isso significa que o CPK está a ser pensado desde o início como uma peça de uma rede mais ampla, e não como uma infraestrutura isolada.
Arquitetura quer juntar avião, comboio e estrada no mesmo espaço
A componente arquitetónica está a cargo da Foster + Partners, em consórcio com a Buro Happold. Na página oficial do projeto, o estúdio britânico descreve o futuro mega-aeroporto como uma “porta de entrada simbólica” para a Polónia, com uma grande praça de intercâmbio em terra, iluminada naturalmente e rodeada de zonas verdes, onde se cruzam ar, ferrovia e estrada num único espaço funcional, representando um avanço na Europa.
A aprovação do projeto do terminal no ano passado reforçou essa ideia de integração. Segundo a Port Polska, o terminal foi desenhado para encurtar percursos, facilitar transferências e acomodar a expansão futura sem uma quebra operacional pesada, o que ajuda a perceber porque é que Varsóvia quer vender esta infraestrutura como um novo centro logístico e de mobilidade para a Europa Central.
Passado travou o projeto, mas o discurso oficial mudou
O projeto chega a esta fase depois de vários anos de polémica e de revisão interna. A NIK, a Suprema Instituição de Auditoria da Polónia, concluiu em 2025 que a preparação do CPK entre 2021 e 2023 não foi feita de forma adequada, apontando prazos irrealistas, falhas de supervisão, atrasos em documentos essenciais e metas antigas que não tinham sustentação suficiente, incluindo a intenção de abrir mais cedo e com uma capacidade inicial de 40 milhões de passageiros por ano.
Foi precisamente depois dessa reavaliação que o programa foi refeito com calendário, custos e fases de execução atualizados. Ainda assim, a própria NIK deixou um aviso importante: o projeto continua sensível a variáveis como procura, custos de investimento e taxas aeroportuárias, o que significa que a ambição polaca está mais organizada do que antes, mas ainda não está livre de risco.
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