Regressei recentemente à Roménia no âmbito de um programa europeu sobre a literacia digital.
A Roménia é um país quase três vezes maior do que Portugal e com uma geografia privilegiada, mas desta vez limitei-me a visitar a capital, uma cidade ampla, com um interessante centro histórico e profusão de edifícios nobres que evocam um período mais rico que o actual. Os edifícios do longo período da ditadura, passem o pleonasmo, que as ditaduras são sempre insuportavelmente longas, coexistem nas suas formas rectilíneas, massivas e brutais (três adjectivos, já me vão acusar de IA-ismo) com os projectos mais modernos. Mas lá estão numa afirmação muda, violenta mesmo, face à nobreza da arquitectura do virar do século, com as suas cúpulas e varandas graciosas.

Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Não nos chega muita informação sobre a literatura nessa língua apesar de tudo muito próxima do português por via do latim, o ancestral comum. É a percentagem vasta de vocabulário de origem eslava que a torna incompreensível aos nossos ouvidos, pese embora os amantes de ambas as culturas consigam, com engenho e arte, criar meia dúzia de frases cuja fonética funciona com eficácia em ambos os contextos.
O delírio arquitectónico da ditadura é o responsável pelo imenso palácio do povo, uma estrutura de dimensões difíceis de justificar, tão difíceis de justificar que hoje, 40 anos depois do início da construção do edifício, ainda não terminou, o que não é verdadeiramente incomum se pensarmos que as obras de muitas catedrais duraram séculos, mas, e mais grave, foi responsável pelo arrasar da malha urbana antiga de parte significativa do centro histórico de Bucareste.

A viagem levou-me a conhecer várias bibliotecas da cidade e, mais interessante, muito mais, a biblioteca do patriarcado ortodoxo com o grande privilégio da visita acompanhada pelo arquimandrita, homem de uma cultura incomum e que nos mostrou com um carinho notável, talvez por isso de mãos nuas, alguns dos livros e incunábulos mais significativos da biblioteca.
Para acompanhar esta viagem escolhi dois livros de autores romenos ambientados na cidade.
Sou da opinião iconoclasta que as ditaduras dizem muito sobre os povos que as suportam… O ditador romeno foi um dia à Coreia do Norte, visitar não sei já se o pai ou o bisavô do ditador actual. Voltou muito impressionado com o urbanismo e com os projectos arquitectónicos que o colega estava a implementar. Quando regressou a Bucareste arrasou parte do centro da cidade, designadamente a colina da Corte Velha, espaço de que necessitava para rasgar os novos grandes eixos viários e construir o palácio do povo. Tomemos, pois, o exemplo infeliz como mote para introduzir uma grande obra literária romena. A maior dos tempos modernos, dirão alguns talvez com exagero, mas para isso há que lê-la. Trata-se do romance homónimo de Mateiu Caragiale, Rakes of the Old Court, de 1929, jóia reconhecida do modernismo na literatura romena. Impressiona pela exuberância do estilo utilizado e pelo estilo misterioso, enigmático. A história decorre duas décadas antes e segue o percurso de quatro personagens pelos bares e bordéis da cidade. O guia da pequena excursão é um oportunista amoral que conduz um narrador nebuloso e mais dois amigos abastados, que flaneiam numa cidade que recordam construída sobre os escombros de palácios e reinos passados. Na narrativa, são fragmentos de amor, ambição e principalmente decadência, que funcionam como agregadores dos diferentes episódios e cenários.

Esta Bucareste metafórica que esquecida dos anteriores períodos de opulência, caíra no início do século vinte em chocante decadência permite o périplo aparentemente sem destino ou propósito mas, tratando-se da ruína da corte principesca, parece adivinhar a intervenção (então ainda no futuro) do ditador a que os romenos viriam a designar ironicamente por Ceusisma, um neologismo construído a partir do nome do ditador (Ceausescu) e da palavra Hiroshima, que é tão brilhante que se explica a si próprio.
Julgo que não existe tradução em português, tanto pelo grande desconhecimento da literatura romena entre nós, como pelo desafio, grande, que apresenta aos tradutores pela riqueza do vocabulário e imagética utilizados pelo autor, junto com a adição de palavras de idiomas vizinhos – do deles, não do nosso.
Para segundo livro escolhi, do já conhecido Mircea Eliade, Uma Segunda Juventude. Um misto de thriller psicológico, com espionagem e um q.b. de filosofia. Este romance tem início em Bucareste no final dos anos trinta. Hitler acaba de chegar ao poder em Berlim e a repressão acentua-se, também na Roménia. O protagonista, um homem que passou a vida a estudar línguas, história e poesia, parece ter chegado ao fim da vida. Depois de um acidente profundamente traumático, começa a despertar, numa cama de hospital, com uma saúde de ferro, rejuvenescido (literalmente) e com uma capacidade intelectual absolutamente extraordinária. Quando escrevo rejuvenescido, não me refiro a meia dúzia de injecções de botox numa clínica libanesa, mas décadas mais jovem e com uma capacidade intelectual única, por exemplo para aprender com um par de leituras e num santiámen, uma língua nova. Note-se que não se trata daquelas com origens, fonética e gramática de vizinhança, mas antes de grego clássico e chinês.

Passado no período vertiginoso em que a Europa corre desencabrestada para o desastre da Segunda Guerra Mundial, Uma Segunda Juventude, pode ser uma fascinante companhia para uma visita a Bucareste.
A cidade vale-se por si, e, mesmo na sua enésima juventude ou talvez por isso mesmo, oferece um excelente lugar para dar asas a um olhar analítico e deambulatório, flaneando, bem acompanhado por vozes da cultura local.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: “basta a lembrança de umas quantas ruas e do seu rio”* | Por José Garrido
















