O ano de 2001 foi a vários títulos estranho, irreal e trágico. Aliás, não terminaria sem a observação em primeira linha, estarrecido, do embate nas torres em Manhattan.
Mas era ainda Janeiro e eu seguia de carro pelas vielas que ligam aquela chapada de casas que do centro de Gaia escorrem até à Afurada e às margens do Douro. Era a inauguração de Porto Capital da Cultura e milhares e milhares de pessoas observavam ainda, maravilhadas, o fogo de artifício.
Foi uma noite grande, daquelas que durante uns poucos anos as pessoas recordarão como única, a mais especial e esplendorosa, brutal, carago! Depois, virão outras, como tudo na vida…

Consultor em Marketing Turístico e Escritor
O objectivo era regressar a um hotel para os lados da Foz, e os grandes eixos (como se os houvesse por ali) estavam cortados pelas forças de segurança ou congestionados pelas pessoas e pelos carros. Ainda não lera Ernestina, que todavia tinha sido publicado dois anos antes, e não conhecia com detalhe todos aqueles meandros e recantos que preenchem a parte tripeira da história da infância do miúdo que não conseguia afastar os binóculos da cara e perscrutava sem cessar a vida, as vidas, e as cidades que o tabuleiro inferior da ponte unia de forma umbilical. Aquela margem em particular não tinha ainda sido disneyficada.
Já conhecia o pequeno barco, graciosamente baptizado: Flor do Gás, velho de décadas, mas incansável na sua teima em fazer a travessia ali da Afurada para o Cais do Ouro, já na margem norte, mas tinha um carro que não me convinha abandonar e um amigo estrangeiro que viera participar na mesma reunião de trabalho que me trouxera até ali.

Enveredámos por aquelas ruas tendo como única certeza a de que para cima e para o sul estava a única saída possível – um paradoxo na cidade grande. Nos cruzamentos, quando era possível os veículos cruzarem, o meu amigo saía do carro e começava a organizar a circulação, sem uma palavra de português e um inglês simples, como viria a ser um quarto de século mais tarde próprio de um presidente americano, mas fortemente condimentado com um sotaque inconfundível do médio oriente. Com uma agilidade impressionante, afinal já não era um miúdo, apoiava a palma da mão no capot do automóvel e com uma técnica digna de Cirque du Soleil saltava de um lado para o outro, fazendo espaço onde ele não existia.
Estupefacto com o nosso sucesso e os olhos cheios da luz, do brilho e da cor dos fogos, conseguimos chegar ao hotel e que ele embarcasse numa madrugada quase silenciosa em que a cidade preguiçava do deboche feérico, e da beleza, da noite anterior.

Uma vez acordado aproveitei para me deixar perder pelas ruas da velha urbe. Dei comigo contornando a Cadeia da Relação, demasiado cedo para me debruçar da janela da cela de Camilo – o que mais tarde se tornou para mim um ritual de perdição (!). Desci, pois, com o casario na direcção da Rua das Flores e atravessei a Mouzinho da Silveira, adentrando uma zona para a qual não tinha ainda sido publicado o seu guia fundamental, o Morro da Pena Ventosa. Foi um passeio pré gentrificação, a tal que Rui Couceiro escancara no livro e tentei encontrar um rumo por entre ruas escuras, ‘no pun intended‘, os edifícios ‘saudavelmente’ degradados e rostos, vozes e expressões de pessoas reais que começavam aos poucos as suas rotinas quotidianas. Os estendais exibiam umas tímidas notas coloridas, disputavam os apontamentos alegres da paisagem com bandeirolas recortadas em papel de seda, destemidas resistentes de algum arraial do Verão anterior e uma pequena grinalda de luzes, ou as luzes que ainda piscavam nela, com teimosia, desde o Natal ainda mal esquecido.

Por fim desemboquei no espaço amplo da Sé. Já desafogado graças à destruição do casario medieval e das ruelas envolventes, lá pelos anos quarenta. E encarei a própria torre de Dom Pedro Pitões, como tantas coisas na vida, parecendo tão sólida e tão credível no seu lugar e afinal, porventura prenúncio do que viria, objecto de translação no espaço e criativa redecoração revivalista com elementos neoclássicos. É que não começou ontem a transformação do bairro…
*”basta a lembrança de umas quantas ruas e do seu rio”
Rentes de Carvalho in Tempo Contado
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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