No século passado e durante um par de anos, semanalmente, costumava apanhar o comboio de Sintra – por altura desta história ainda sempre sentado e nunca pendurado no estribo, o que viria mais tarde, já nos tempos da faculdade – e saía no Rossio, com o livro de exercícios do Czerny debaixo do braço, dirigindo-me à paragem do 28.
Lisboa não era ainda um lugar sobrelotado de turistas, os bairros tinham uma genuína patina de antiguidade, e mesmo sem os pregões das cantigas, não se escutava em permanência o ruído irritante, de cigarra marafada, das rodas dos tróleis dos turistas.
O 28 era um meio de transporte: ponto. Tirando nas horas de ponta, era fácil sentar nos bancos forrados a napa verde. Abrindo as janelas de guilhotina, operação que fazia desaparecer a metade debaixo no interior da estrutura, escutava-se os sons característicos da cidade que não eram amordaçados pela cacofonia de dezenas de idiomas e a ubíqua intrusão dos telemóveis consumindo a paisagem com letreiros retro, produtos vintage, brands internacionais e gente, muita gente acotovelando-se nos passeios, quase tanto como dentro do eléctrico.

Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Consoante o humor optava por esperá-lo na Rua da Madalena e outras vezes no Martim Moniz. Quando a História do Cerco de Lisboa foi publicada, eu estava, quase se pode dizer, de malas aviadas para mudar a minha vida para o Algarve, mas fosse pelo conhecimento profundo da zona ou pelas muitas visitas nas décadas seguintes, permito-me amalgamar as minhas memórias e recordar aqui, o entediado revisor literário Raimundo, cuja vida insuflada por Saramago, decorria fundamentalmente por estes territórios entre a Mouraria e a Alfama.

Do Martim Moniz não se dizia ainda que era o centro fusion, diverso e inclusivo da nova Lisboa multicultural. Havia uns pavilhões grandes, de madeira, de forma ligeiramente ovóide, construídos pela câmara para acomodar provisoriamente os comerciantes expulsos dos edifícios demolidos para criar ali aquele espaço amplo. Eram provisórios, mas entram na minha memória. Já teriam talvez um quarto de século e faziam parte integrante da paisagem urbana, ampla, criada naquele vale onde depois da demolição da igreja e do arco da porta da Mouraria, ficaram os pavilhões, a capela da Senhora da Saúde, um parque de estacionamento e, as paragens dos eléctricos: várias, instaladas como que em terraços. Recordo também que ao lado costumava haver uma carreira que servia os utentes do Cemitério do Alto de São João. Melhor dizendo: quem os recordava…

O meu destino era o Largo da Graça… tampouco se falava muito do miradouro da Senhora do Monte, mas a lenda feita devoção da cadeira de pedra de São Gens já acomodava grávidas em busca de uma boa hora e o Funicular da Graça que demorou horrores para ser construído não era ainda, nem sequer, imaginado.
Depois da lição. Ali mesmo no Largo da Graça, num contexto literariamente cozy em que os poetas do Orpheu ainda respiravam, e pela compreensão completa do qual daria hoje um rim, aguardava-me de novo o 28 que não se chamava bondinho, nem tramway, nem nenhuma outra tolice. Era o 28, o amarelo da Carris.
É este troço, Voz do Operário, Escolas Gerais e Portas do Sol até à Sé, que está para mim indelevelmente associado ao livro Páscoa Feliz, o primeiro do José Rodrigues Migueis, uma novela psicológica, que tem uma acção fundamental no tribunal, porventura o da Boa-Hora, mas que em bom rigor não é mencionado pelo autor.

No regresso passava travando, extraindo uns guinchos aflitivos do atrito das rodas metálicas nos carris, frente a São Vicente de Fora, onde a dupla via emagrecia forçadamente para a entrada em curva apertada na Rua das Escolas Gerais. Sim, porque a estreita rua dava também serventia a veículos automóveis e a peões, transeuntes e gente de trabalho que fazia entregas em carrinhos e triciclos. Conformava-se com uma estreiteza tão modesta que obrigava as pessoas a procurar abrigo nas ombreiras das portas. Logo à entrada, havia um funcionário sentado numa cadeira, num lugar estratégico com vista para o colega no outro extremo, empunhando uma bandeirola que permitia ao eléctrico avançar com confiança pela rua exígua, emoldurada por uns passeios de casa de bonecas e fachadas ligeiramente inclinadas para a rua de onde afloravam afoitos alguns objectos desde as portas e janelas dos muitos comércios. Sem dúvida, imbecilidade típica dos verdes anos, 14, 15 (?) mas que ainda assim afrontavam sós os transportes públicos e a azáfama da cidade, achávamos bem divertido aproveitar a lentidão com que o eléctrico atravessava aquele troço da rua para pegar nos cabides que expunham blusas, vestidos e batas, trocando-os de prego, de fachada e de proprietário. Depois da formalidade bem composta da lição de piano, aquelas traquinices parvas eram um bálsamo que nos fazia seguir rindo até pelo menos às Portas do Sol, mas mais frequentemente, passada a Sé, até à nossa última paragem, já na Rua Augusta.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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