E não é que parece mesmo? Décadas de deambulações por diferentes lugares de Trás-os-Montes e apenas conhecia o miradouro (nunca o vocábulo foi mais apropriado) nas palavras de Miguel Torga.
Finalmente, ofereci-me o prazer de subir a esse talefe – há mesmo um talefe – a que nas páginas de Vindima chama também o “alto trono de quartzite”.
Foi em Torga, muito cedo, que pela primeira vez me encontrei com a palavra ‘telúrico’, que adoptei de imediato e nunca mais abandonei. Em Torga ganha uma dimensão maior que se projecta para além do dicionário, da adjectivação dos sismos e da caracterização de fenómenos geológicos, para se virar para o Homem e caracterizar a ligação, profunda, com a terra natal.

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Em lugar algum como nas páginas desse primeiro romance, encontramos um retrato tão fantástico, tão profundamente torguiano, encavalitado entre o realismo e o neo-realismo a que Torga acrescenta, com um talento e poesia notáveis, a dimensão do indivíduo, teimosamente enxotando a ganga colectivista para dar ao homem, ao homem que criou, não o mundo, mas o seu mundo, o Douro e a sua paisagem peculiar.

Do alto do miradouro de São Leonardo de Galafura, depois da ermida, o murete de pedras convida-nos a sentar admirando, em baixo, ao fundo, e até ao horizonte, diferentes troços, os meandros de um Douro cuja imagem de marca, miserável, é certo, não era ainda a das quintas, dos cruzeiros e dos resorts com spa.
Deixar o alto de Galafura, custa quase tanto, se não mais, do que lá chegar. O pescoço queixa-se, enquanto os olhos, teimosamente, se mantêm apegados à fita descontínua, azul, do rio.

Mas seria ofensivo chegar até ali e não percorrer o resto do caminho, dúzia e meia de quilómetros, se tanto, por caminhos velhos, serpenteantes, até São Martinho de Anta e tentar o exercício de intuição que nos ajude a perceber, por entre aquelas poucas ruas, a Escola Primária, a do Senhor Botelho, a casa natal, com o seu jardim extraordinário, cada Primavera cheio de um exagero de camélias, rododendros e peónias, o Largo do Eiro, onde pontua, agora, a ausência do negrilho, o ulmeiro do qual Torga disse que era onde o tempo fazia ninho.
O belíssimo Espaço Miguel Torga, equipamento cultural de excelência acolhe uma exposição permanente sobre o autor, organizada com esmero e detalhe e abundância de elementos pictóricos. Ao longo do ano catalisa eventos significativos que de igual modo honram a sua memória e é também a porta de acesso à casa, museu, uma centena de metros a norte, mais próxima do centro. Ali vamos também encontrar fascinantes registos áudio do autor e da sua obra, era a esta casa, remodelada nos anos 60 por Andrée Rocha, que o autor sempre regressava. Nas paredes, lá estão os diferentes mementos oportunamente seleccionados para corporizar a presença do autor na sua casa.

Quando visitámos havia uma exposição de trabalhos realizados por alunos das escolas da região evocando os 75 anos de Um Reino Maravilhoso, o capítulo do livro Portugal dedicado a Trás-os-Montes, que começa: “Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.” […] começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores.”
Um pouco arredada do centro da vila, já no centro do tal Reino Maravilhoso, está a igreja da Senhora da Azilheira, como aos pais e ao negrilho, também a ela veio um dia Torga apresentar a sua mulher. Em frente, sinal dos tempos um baloiço ‘instagramizável’ emerge de um espaço recentemente queimado.
* Miguel Torga in Contos da Montanha
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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