Quando Ptolomeu V foi coroado rei do Egipto em 204 AC, o aparelho de estado, numa iniciativa com prática pujante até aos dias de hoje, apressou-se a emitir um decreto estabelecendo o culto divino do novo governante… Pese embora o papiro estivesse nessa altura em uso continuado havia mais de dois mil anos, era práctica comum que as leis mais relevantes fossem entalhadas numa laje de pedra, uma estela, instalada num templo.
Séculos mais tarde, em data imprecisa, talvez na Idade Média, como tantas vezes na história, a pedra, sem atenção ao seu papel e mensagem original, foi utilizada como material de construção numa fortificação na cidade de Roseta, no delta do Nilo, a sessenta quilómetros a leste de Alexandria.
Novo salto na história, em 1798, Napoleão Bonaparte embarca para a sua Campanha do Egipto, nos três anos seguintes deambula pelo Próximo Oriente, somando vitórias, derrotas e também episódios caricatos… não resiste à tentação de se enroupar na religião local e por ocasião do aniversário do Profeta apresenta-se de turbante, vestido à oriental, e proclama-se ‘digno filho do Profeta’, nada que Alexandre não tivesse feito 2000 anos antes, filho de Amon, ou que Trump não faça com os seus memes com Cristo.

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Sensivelmente por essa altura, o tenente francês Bouchard, redescobre, por entre as muralhas arruinadas do forte de Roseta, a estela de Ptolomeu V que é recolhida com o propósito de a despachar para Paris. Os grandes homens sabem quando começam as campanhas militares, mas a verdade é que ninguém prevê quando elas acabam – o que também é válido até hoje. Cópias da pedra original são então distribuídas por várias instituições. A estela é capturada pelas tropas inglesas e termina no British Museum, onde continua a ser exibida, com curtos hiatos, como quando por receio dos bombardeamentos de Londres, esteve temporariamente num dos túneis do chamado metropolitano postal a 15 metros de profundidade, próximo de Holborn. Com o número de inventário “EA 24”, é considerada o objecto mais visitado do museu.

Adiantando a história: sabemos de que tratava a pedra, mas não logo à época da sua descoberta. Que Ptolomeu tinha feito uma oferta de prata e cereais ao templo – ça va de soit, poderia ter dito o tenente Bouchard, na altura – que as cheias do Nilo tinham sido particularmente fortes naquele ano e que haviam represado as águas – aqui está a primeira coisa que não parecemos ter aprendido com a história – e que, como contrapartida, o clero honraria o nascimento e a coroação do rei como dias santos e prestar-lhe-ia culto ao lado dos outros deuses.
Estará o leitor a perguntar-se: onde é que vai esta digressão histórica? Peço-lhe um pouco mais de paciência.

O decreto inscrito na estela termina com a indicação de que seja colocada uma cópia em cada templo escrita na “língua dos deuses”, os hieróglifos egípcios, na “língua dos documentos oficiais” uma versão mais moderna do egípcio, usada nos negócios e pelas pessoas no seu dia-a-dia, e “na língua dos gregos” então utilizada na corte ptolemaica. Ou seja, a Pedra de Roseta apresentava-se, à época, apesar de os textos estarem incompletos, como um documento único: trilingue.
Agora sim.
Figeac é uma pequena cidade histórica, arrimada à margem do rio Célé, na região francesa da Occitânia. Para além de um centro histórico medieval de grande interesse, com profusão de edifícios de notável arquitectura, foi a terra do linguista Jean-François Champolion, famoso por ter sido o primeiro a decifrar o mistério, ou os mistérios, da Pedra de Roseta, providenciando a sua primeira tradução.
Bem no coração de Figeac, um excelente edifício de vários andares, perfeitamente integrado no casco urbano, alberga o museu que lhe é dedicado, o Museu Champolion das Escritas do Mundo, sobre a evolução diacrónica das diferentes escritas que a humanidade foi desenvolvendo desde os alvores da História.

Não contam com o original da Pedra de Roseta, mas sim com uma réplica – moldagem precisa – a instrumentação moderna para a sua análise detalhada e uma instalação artística de grandes dimensões recobrindo o pátio, ao ar livre, do próprio museu.
Desde 1799 que se sabia que a pedra tinha o carácter de um documento trilingue, mas pouco mais se sabia. Sensivelmente desde o fim do Império Romano que a língua dos hieróglifos deixara de ser entendida, a componente grega, apesar do conhecimento generalizado do grego antigo, utilizava a versão helenística da corte ptolemaica, uma coisa razoavelmente desconhecida, e o texto em demótico, pensava-se, que fosse língua copta. Logo em 1803 foi possível contar com uma tradução do grego, mas graças ao génio de Champolion, apenas vinte anos mais tarde era anunciada a decifração dos hieróglifos. Um trabalho meticuloso de recuperação das três versões do mesmo texto e, a partir daí, não só a sua interpretação integral como o estabelecimento do seu papel instrumental na descodificação de muitos outros textos.

Em Junho de 1823 Champolion escrevia a um colega: “A minha investigação demonstrou que o sistema gráfico egípcio […] é uma mistura de três tipos de sinais empregues simultaneamente em todos os textos […]: sinais figurativos, sinais simbólicos e sinais fonéticos (dos sons).“
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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