Foi o que viram aparecer, na estação ferroviária de Aregos, Jacinto e Zé Fernandes, quando desembarcaram do comboio, infinitas horas depois de terem partido do célebre 202 dos Champs Élysées.
Os mais atentos, recordarão os personagens e o episódio significativo de A Cidade e as Serras. Jacinto abandona, temporariamente, inimaginável, então, pensar em algo mais do que isso, os confortos hipercivilizados da sua vida parisiense para visitar a sua quinta no Douro.
Vamos a Tormes?
A crónica de hoje, narra e propõe uma visita à Quinta de Tormes, não muito longe de Baião, sede do concelho, mas muito longe de tudo: então e ainda hoje…

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A Fundação Eça de Queirós, em justa homenagem ao patrono, adaptou esta quinta a espaço museológico. Sabemos, os apreciadores de Eça, e naturalmente, os seus biógrafos, que a quinta teve uma presença muito limitada na vida do autor, mas sem ela não existiria A Cidade e as Serras. A quinta chega à posse de Eça, por via de herança da mulher e ele descobre-a num momento relativamente tardio da sua vida quando começa a questionar a bondade do progresso, e dos, ainda não lhes chamávamos gadgets, que, já então, contaminavam o quotidiano das pessoas até lhes fazerem crer serem indispensáveis.

No passeio que hoje propomos, metáfora brutal da viagem de Jacinto, veremos que, pelo menos enquanto escrevo estas linhas, chegar pela linha do Douro a Tormes, não é hoje mais fácil do que no final do século xix. Se vindos de Castela a Velha, recordem que a linha férrea já não cruza o rio Águeda para entrar em Portugal, escassos metros antes da sua foz no Douro e, por obras de manutenção, modernização – como o Jacinto apreciaria estas palavras – não para (temporariamente, esperemos) na estação de Aregos.
Naquela célebre viagem, um pouco ao jeito das cartas endereçadas a Macau que teimavam em aterrar em endereço desconhecido na vila beirã de Mação, as 23 malas de Jacinto extraviam-se e são destinadas à vila salamantina de Alba de Tormes. Toda a bagagem? Quase. Há três itens que chegam, galhardamente, em simultâneo com o nosso viajante: um paletó alvadio, uma bengala e um exemplar de O Jornal do Comércio.

Jacinto e o seu amigo Zé Fernandes, desembarcam, pois, na estação de Tormes, quer dizer, em baixo, junto ao Douro, e a bagagem não os acompanha nem tampouco o caseiro, que não recebeu notícia da ilustre visita, os espera. É onde entra o título desta crónica – Uma égua ruça, um jumento com albarda, um rapaz e um podengo – a comitiva que se consegue improvisar para a subida até à quinta.
São uns bons três quilómetros com uns robustos trezentos metros de desnível positivo. Se o leitor se der ao trabalho de calcular a percentagem, os dez por cento talvez não o escandalizem, a questão é que há troços onde essa inclinação se estica, desmesuradamente, dirão alguns, e a coisa, num lindo dia de sol, pode apresentar-se meio asselvajada. Para o amenizar, lá estão as maravilhosas perspectivas, do campo – foram essas seguramente que encantaram o Jacinto – os diversos solares e, na Primavera, as pinceladas azuis da ubíquas glicinas, provocando o caminhante com os seus aromas inconfundíveis, os borrões brancos dos maciços de jarros e o verde, o verde incontornável, dos sucessivos bosques que encontrará, sempre cingidos por frescas, isso sim, e cantarolantes levadas, por onde a água se apressa, como se temesse não chegar a tempo ao comboio.

Uma coisa vos posso garantir, não há forma mais prazerosa e literariamente significativa de aceder às alturas da Quinta de Tormes. Não há maneira mais clara de entender a mensagem de A Cidade e as Serras, aquela dicotomia entre o progresso da, aqui ele optaria por grafar com um ‘soi-disant vida civilizada’, e a tranquilidade pacata da serra, que é o cerne desta novela de publicação póstuma, a que o autor mesmo chamou de ‘novela fantasista’.
Do mesmo modo que Jacinto deixa os Champs Élysées, são evidentes as comparações com a vida de Eça que depois de uma mão cheia de cidades portuguesas reside em Havana, Bristol, Newcastle e Paris. Eça, começa a afastar-se do realismo e da crítica contundente à sociedade portuguesa da época, para desfrutar de um certo bucolismo campestre que o Douro sempre oferece – ainda hoje, acreditem, tal como os pratos que lhe são oferecidos no improviso daquela chegada intempestiva do patrão à quinta, o célebre arroz de favas e o frango corado à Tormes, hoje bem mais difícil de descobrir, por entre os excessos gastronómicos dos nossos dias, com as bifrangas num extremo e as incontornáveis michelinzices no outro.

Em Tormes encontramos o seu escritório de trabalho, a biblioteca trazida da casa de Paris, o arquivo das notas pessoais e o que mais o encantava “como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar”.
* Eça de Queirós in A Cidade e as Serras.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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