A cidade é, pode dizer-se, milenar, o que acentua a injustiça permanente da maior parte dos visitantes que a ignoram, utilizando apenas como plataforma para acesso à cordilheira e aos pedaços mais suculentos da oferta turística do país, e não estou a falar do cuy, porquinho-da-índia, aquela espécie de ratazana grande que eles assam numa pingadeira e que faz todos os locais salivar.
Lima – já tinham adivinhado – tem uma história longa. Com ocupação humana desde a pré-história, isto é, bem antes de Colombo aportar à ilha de Hispaniola, foi conquistada pelos incas nos últimos anos do século xv. Pouco depois, Pizarro dizimou o que sobrava da civilização inca e no primeiro quartel do século xvi fundou a cidade dos três reis – os magos, era o dia da Epifania.
Cresceu para ser a maior cidade da América hispânica e capital do vice-reinado. Cinco séculos depois, a cavalo sobre os vales de três rios e arrimada à costa do Pacífico, tem mais de dez milhões de habitantes e é a capital do Peru. Ainda assim, como já mencionei, a maior parte dos visitantes passa apressada rumo aos Andes, a Cuzco, a Machu Picchu e ao Lago Titicaca. É compreensível, mas imperdoável.

Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Recorda-me sempre, numa vida anterior, as minhas discussões com amigos e colegas italianos que teimavam comigo que, Milão, não era uma ‘cidade histórica’, como era possível, com o Duomo, a última Ceia e a pietà Rondanini? Bom, era-o, no contexto da riqueza fabulosa do país.
Com Lima passa-se uma situação semelhante. Também nunca esquecerei, o meu primeiro desembarque na cidade, com dezassete anos, só, num vôo nocturno proveniente do Rio de Janeiro. Minutos antes da aterragem, relembraram – para quem já o sabia, que não era o meu caso – que havia um recolher obrigatório e que não era possível deixar o aeroporto. O aeroporto ainda é no mesmo sítio, apenas, já não num espaço remoto e isolado – a verdade é que, depois de uma longa conversa com o oficial de marinha responsável pelo estado de sítio na região de Callao, consegui um salvo conduto, para mim e para o taxista que me depositou na porta de um hotel que seguramente tinha visto as tropas de Pizarro, pelo menos as praças, em pleno centro histórico da capital.

A Plaza Mayor ainda lá está, com belíssimas fachadas que se erguem sobre os pórticos em tons ocre e com abundância de traves de madeira escura e as marquises de autêntica talha, características da arquitectura colonial, com a Basílica-catedral, o Palácio Municipal e o Palácio do Governo da República.
Na manhã seguinte, dirigi-me à estação ferroviária, a de Desamparados, um pouco atrás do palácio. Havia uma ou duas locomotivas belíssimas, e um enorme painel estático, onde cabiam todas as partidas da semana, era uma quinta-feira, o comboio para Cuzco – sim, sim, também eu – partia logo às 6 da manhã, às terças-feiras. Um dia bem medido até Huancavelica e um autocarro para os quinhentos quilómetros restantes.

A minha estupefacção, frustração, também, ainda foi brindada com o comentário de um ferroviário: chama-se o tren macho porque “parte quando quer e chega quando pode”…
Hoje, a estação, encostada ao rio Rimac, quase escondido pela via expresso e pela via do evitamento (!) – Quarteira também já teve uma avenida de penetração (!) – é um museu da língua, a Casa da Literatura Peruana. Uma adaptação notável do edifício clássico de finais do século xix. É um lugar de encontro, reflexão e criação em torno da literatura onde a figura central é, justamente, Vargas Llosa e a sua obra.
Não sei já qual das ‘estações’ me impressionou mais…
Mas recordei, sim, Lima num passado não muito recuado, nas passagens do fantástico El Hablador, aquelas narrações em contraponto, o passado e o presente, a sociedade moderna e as tribos que podem comunicar com os elementos naturais, e Lima.

A Conversa n’A Catedral, o romance que o autor confessou que mais trabalho lhe deu, – e que consigna um notável início, a frase-pergunta que é um achado: “em que momento é que o Peru se teria lixado?” – a firmando que se tivera de salvar do fogo uma única das suas obras, seria esta.
Mas não ficam por aí as referências. Autores mais contemporâneos têm continuado, com talento, a utilizar como cenário a belíssima capital, como é o caso de Lorenzo Helguero e o seu Asesinatos en verso. Numa Lima ficcional, cria um interessantíssimo romance noir, em que um conjunto de crimes atrozes parecem ser dirigidos especificamente às gentes das letras, editores, tradutores e escritores. O diabo seja surdo cego e mudo.
“Panza de burro”: Aforismo local usado para descrever a cor cinza, plúmbea, densa e persistente, do céu de Lima durante o Inverno.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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