Nada nos pode preparar para o primeiro embate com a cidade de Tóquio: para o último tampouco… É qualquer coisa difícil de definir, uma aceleração brutal, mas ao mesmo tempo harmónica, e sempre cheia de civismo. Não é essa aceleração, balbúrdica, a que aludi, o que define esse sentimento. O Oriente pode ser frenético, confuso, insano, sobrelotado, mas em Tóquio é a forma como a coisa está organizada, a correcção e a sensibilidade, que nos marcam.
A internet está cheia de textos, imagens, webcams, referências, a Tóquio, seria despiciendo trazer-vos aqui uma perspectiva de blogueiro. Deixem apenas que partilhe o que me sensibilizou mais.

Consultor em Marketing Turístico e Escritor
Há um parque, um de muitos, no centro da cidade, a que se pode chegar de barco. Não um barco de turismo, se bem que é sempre ténue a diferença nestas megametrópoles. Falo de um barco mais aparentado com um pequeno “cacilheiro”, um transporte público que, com várias paragens no rio, permite partir de uma qualquer estação de metro movimentada – passem a redundância – e desembarcar num pequeno cais arrimado a uma muralha de pedra onde se erguem várias espécies de pinheiros, com aquela cara de bonsai que apenas os jardineiros japoneses sabem criar: são os jardins de Hamarikyu. Aqui está também o famoso pinus de 300 anos, com um tronco imenso, quase horizontal, apoiado num conjunto de postes colocados em lugares escolhidos judiciosamente.
Por ali, numa pequena ilha, há também uma velha casa de chá onde é possível voltar ao Japão antigo, por exemplo, lendo pela primeira vez ou recordando, as impressões de viagem de Venceslau de Moraes no seu O Culto do Chá ou o Dai Nippon.

Os templos citadinos são lugares especiais tipicamente ostentando as suas alamedas de torii, esses portais tradicionais japoneses, que marcam a entrada dos santuários xintoístas e simbolizam a transição do mundo material para o sagrado. Invariavelmente pintados de vermelho, foram dispostos, há séculos, em jardins objecto de um gracioso paisagismo criado com sensibilidade sobre singelas colinas urbanas. Há muitos, enormes e fascinantes. O meu preferido é o de Nezu-jinja meio escondido no bairro de Bunkyo, sem essas hordas de visitantes, passeantes e tudo o mais, que nos fazem, hoje, desesperar, em muitos lugares sedutores, por esse mundo fora. Diga-se em abono da verdade que tive o privilégio de o visitar sob uma chuvada diluviana. Naturalmente, gente de bom senso, não andava por ali, e eu pude deliciar-me com a beleza intimista de um casamento, num dos pequenos pavilhões de laca vermelha no complexo do templo.

Nas páginas de Murakami, em Norwegian Wood, quando o seu vôo se faz à pista de Frankfurt, chegam aos ouvidos do executivo trintão Toru Watanabe, os acordes do tema homónimo dos Beatles que têm o condão de o transportar de volta à sua juventude na Tóquio dos anos sessenta. Uma excelente fonte para mergulhar em páginas bem atmosféricas onde decerto encontraremos ecos do Japão eterno que emerge harmonicamente da herança secular.
É essa percepção do mundo que voltamos a encontrar imbuída na história terna, já legendária, de Hachiko, o cão de raça akita, que diariamente esperava o seu dono, Ueno, na estação ferroviária de Shibuya e que continuou a fazê-lo, à mesma hora, durante dez anos, depois da morte do dono, tornando-se um símbolo nacional de lealdade e fidelidade.

Mas podemos de igual modo recorrer às páginas ternas, sensíveis, de Doce Tóquio de Durian Sukegawa, quando nos fala de humanidade por entre as receitas de doçaria de uma senhora idosa que se entrega à preparação das pequenas panquecas tradicionais, chamadas dorayaki, de alma e coração…
Tal como a contagem de palavras desta crónica, o dia em Tóquio estará prestes a chegar ao fim, e a recomendação para o crepúsculo é precisamente subir ao quadragésimo quinto andar do edifício do governo metropolitano da cidade – a dimensão a que a burocracia pode chegar quando não é refreada nunca cessa de me surpreender – e deleitar-se com as incríveis panorâmicas sobre os 360 graus do horizonte desta cidade deslumbrante.
Sayōnara Tōkyō
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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