Istambul é uma paixão que despertou já quase na idade adulta, com a primeira de muitas visitas: um amor maduro.
Não carece de grandes planos. Chego com apenas uma regra: ficar em Sultanahmet, o bairro que melhor encarna a alma da cidade. Ali, para além do palácio Topkapi, fica a fabulosa Santa Sofia e quase em frente fica a mesquita azul, a do sultão Ahmed, que dá o nome ao bairro.
Do outro lado, o das ruelas descendo para o Bósforo, fica a antiga cadeia, o edifício neoclássico turco que alberga hoje um hotel luxuoso Four Seasons Hotel ostenta o fascínio da referência por Graham Greene no seu livro O Expresso do Oriente.

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A poente, fica o hipódromo romano, com o obelisco de Teodósio I, trazido de Carnaque, onde emparelhava com o obelisco de Latrão, hoje em Roma. E por fim, temos a Cisterna, a imensa catedral subterrânea, que estrelou na década de 60 no filme de James Bond, 007 Ordem para Matar e, mais recentemente, no livro e filme, Inferno, de Dan Brown.
Quando descemos na direcção do Corno de Ouro, encontramos a gare ferroviária de Sirkeci, donde partia o Orient Express, para Paris, contornando a base do promontório, entre o mar e as muralhas do Palácio de Topkapi. Mencioná-lo, obriga a referir a autora Agatha Christie, também ela com uma ligação forte à cidade, que visitou com frequência enquanto o marido se dedicava a escavações arqueológicas, e ficando, invariavelmente, no Hotel Pera Palace, no quarto 411, no qual se acredita que escreveu o seu Crime no Expresso do Oriente. Facto ou construto marqueteiro, lá está a designada suite da Agatha Christie que o hotel mantém como um espaço museológico.

Do outro lado do Corno de Ouro, fica o bairro dos estrangeiros, dos cristãos e comerciantes: Pera. Avistamos a Torre de Galata, ponto de vigia dos genoveses no bairro de Beyoglu mas optamos por tomar um dos funiculares mais antigos do mundo, o Tünel, prodigiosa obra de engenharia com 150 anos, ligando em escassos minutos Karakoy, a margem norte do Corno de Ouro, às alturas de Galata e ao icónico eléctrico de Taksim.
A rua Taksim, pedonal, cheia de comércios fascinantes, pastelarias sofisticadas e quiosques vendendo tabletes de chocolates artesanais, termina na grande praça homónima, onde o eléctrico faz um percurso circular para regressar ao início. É aqui que encontramos os pequenos estabelecimentos onde empregados de aventais brancos, engomados e imaculados mesmo após uma jornada longa de trabalho, preparam os irresistíveis kebab que acompanham com sumos de toranja ou romã.
No regresso, de novo na margem do Corno de Ouro, embarcamos num dos ‘cacilheiros’ que atravessam para Fener, bem próximo da igreja ortodoxa de Santo Estevão, na verdade fabricada em Viena, há mais de cem anos, em placas de ferro fundido, para aqui então transportadas.

Durante a travessia, observando as colinas na outra margem, mais acima, poderemos talvez vislumbrar a Colina de Pierre Loti, o oficial naval francês, que no final do século XVIII teve uma relação secreta com uma mulher casada, do harém, com a qual se encontrava nestas colinas. O seu nome era Aziyadé, imortalizada no romance homónimo.

Para o final do dia, quase toda a gente recomendará um dos inúmeros restaurantes de peixe em Kumkapi. autênticos, lugar atmosférico, experiência imperdível. Eu, sempre preferirei a placidez dos pequenos restaurantes em Galata, na margem do Bósforo, passado o Museu de Arte Moderna e junto à Torre do Relógio: gostos…
É bem evidente que o melhor de Istambul é o flanar, sem pressa nem destino pelas pequenas ruas, mas ainda assim é muito recomendável voltar a Galata, e deixar-se deslumbrar pelo Museu da Inocência, criado pelo Nobel da Literatura, Orhan Pamuk, em tandem com o seu romance homónimo. Aqui, num lugar discreto de um bairro popular, reuniu uma colecção heteróclita e fascinante de objectos associados ao quotidiano istambulense do período em que a acção decorre, e mesmo, pasme-se, objectos associados à vida dos personagens que criou para esta ficção fascinante, construída em torno da relação, obsessiva, entre duas famílias. Coisas simples, como uma caixa de fósforos, uma taça esbeiçada, um batom ou um bilhete de eléctrico, referenciados a um momento específico da trama narrativa, vão entrosar-se de um modo surpreendente e maravilhoso com as nossas próprias memórias da leitura do Museu da Inocência – o livro.
A próxima proposta leva-nos, com outra leitura, até ao bairro de Edirnekapi, na península histórica, a oeste. A Igreja e museu de São Salvador em Cora, depois transformada em mesquita, para conhecer um belíssimo exemplo de igreja bizantina com extraordinários trabalhos em fresco e mosaicos. Ao lado, impressionantes ainda, as muralhas da cidade, permitirão evocar o talento de Amin Maalouf, que nos dá vívidas descrições da cidade, do cerco e do saque, em As Cruzadas Vistas Pelos Árabes, quando a Quarta Cruzada, a caminho do Egipto, aproveita para atacar e pilhar Constantinopla, a maior e mais rica cidade cristã do Levante.

Last but not the least em O Périplo de Baldassare, o protagonista, como o autor, libanês, vai a Istambul no decorrer de um périplo pelo mediterrâneo em busca de um livro sagrado: tal como nós, leitor. Os que estamos constantemente à procura de um livro, especial, único, sagrado.
Istambul, não é apenas mais um lugar, igual a qualquer outro, para buscar o livro da vida. É a própria vida e o livro, e uma construção de memórias seguramente mais impactantes do que as de tantas outras, em cidades que terá anteriormente visitado.
*Orhan Pamuk
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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