Sonhar que beija outra pessoa ou que regressa a uma antiga relação pode deixá-lo desconfortável ao acordar. Mesmo depois de perceber que nada aconteceu, pode surgir a dúvida: será que aquele sonho revela uma vontade que nunca admitiu? O conteúdo de um ou mais sonhos, por si só, não permite chegar a essa conclusão.
A explicação é de Roser Gort, psicóloga colaboradora da Clínica do Sono Estivill, em Espanha.
Numa entrevista ao portal de informação sobre saúde da agência noticiosa espanhola Europa Press Infosalus, a especialista esclarece que podemos sonhar com situações contrárias aos nossos valores sem querer concretizá-las.
Sonhar com uma traição não significa querer cometê-la
Segundo a psicóloga, o cérebro pode construir cenários que envolvem uma infidelidade, incluindo as emoções que essa situação provocaria e a possível reação da outra pessoa. Essa experiência durante o sono não equivale a uma intenção consciente.
Assim, alguém que tem uma relação pode sonhar com outra pessoa sem que isso demonstre, por si só, uma vontade de trair. A distinção está entre uma situação imaginada involuntariamente e uma decisão tomada enquanto se está acordado.
Memórias e receios entram na mesma história
Gort descreve os sonhos como um espaço onde se misturam recordações, emoções, medos, desejos e experiências recentes. Nesta combinação, a lógica pode ter uma intervenção menor do que aquela a que estamos habituados durante o dia.
Isso ajuda a compreender porque podem surgir pessoas do passado em circunstâncias inesperadas. A presença de um antigo companheiro ou companheira num sonho não deve, por isso, ser interpretada automaticamente como vontade de retomar a relação, de acordo com a psicóloga.
Exemplo de um carro roubado
Para explicar esta diferença, a especialista apresenta uma situação hipotética: sonhar que se rouba um automóvel e que se é perseguido pela polícia. Uma pessoa pode imaginar esse episódio durante o sono sem alguma vez ter planeado fazê-lo.
Na leitura de Gort, o cérebro pode explorar diferentes possibilidades e as emoções associadas a cada uma.
A psicóloga compara esse processo a uma experiência mental de tentativa e erro, que permite imaginar formas de reagir.
Por que motivo aparecem situações tão absurdas?
A especialista relaciona a falta de lógica de alguns sonhos com alterações na atividade do córtex pré-frontal, uma região envolvida no planeamento, na tomada de decisões e no raciocínio. Durante o sono, o seu funcionamento difere daquele que existe quando estamos acordados.
Nesse contexto, podem surgir mudanças repentinas de cenário, encontros impossíveis ou comportamentos que seriam estranhos na vida real. Segundo a explicação apresentada, essa incoerência não obriga a procurar uma mensagem escondida em cada pormenor.
Função dos sonhos continua a ser estudada
A ideia de que os sonhos permitem ensaiar situações é uma explicação possível, mas não deve ser apresentada como uma função definitivamente demonstrada para todos os sonhos. O Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos esclarece que os cientistas ainda não sabem ao certo porque sonhamos.
De acordo com a mesma entidade, os sonhos tendem a ser mais vívidos durante o sono REM, embora também possam ocorrer noutras fases. Conhecer estes mecanismos não permite atribuir um significado único a um sonho de infidelidade.
Sonho não é uma confissão
A mensagem de Gort centra-se no caráter automático e involuntário destas experiências. Sonhar com uma determinada ação não demonstra que a pessoa queira praticá-la, nem transforma essa ação imaginada num comportamento real, de acordo com a Infosalus.
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