A experiência do tratamento oncológico está a mudar com a introdução de uma nova forma de administrar imunoterapia. O que antes implicava longas sessões hospitalares pode agora ser feito em menos de um minuto. Trata-se do pembrolizumab, conhecido como Keytruda, que passa a estar disponível numa versão injetável subcutânea, com impacto imediato na rotina dos doentes.
De acordo com o The Times, jornal britânico especializado em política, saúde e ciência, esta nova formulação começou recentemente a ser utilizada no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, o NHS, e deverá abranger dezenas de milhares de pessoas. O medicamento, indicado para 14 tipos de cancro, entre os quais o da mama, do pulmão e do colo do útero, deixa de ser administrado por via intravenosa para passar a ser aplicado através de uma simples injeção na coxa ou no abdómen.
Até aqui, cada sessão implicava uma deslocação prolongada ao hospital, com tempos médios que podiam chegar às duas horas, incluindo preparação do fármaco e período de administração. Com esta alteração, o contacto do doente com o hospital passa a ser muito mais breve, mantendo-se, ainda assim, a obrigatoriedade de aplicação por profissionais de saúde.
Menos tempo no hospital, mais tempo fora dele
A frequência do tratamento não se altera. Tal como acontecia anteriormente, as administrações mantêm-se de três em três semanas ou, nalguns casos, de seis em seis semanas. A diferença está, sobretudo, no impacto prático no quotidiano dos doentes, que deixam de ter de planear grande parte do dia em função das sessões.
Segundo a mesma fonte, cerca de 14 mil novos doentes iniciam anualmente este tratamento em Inglaterra, sendo expectável que a maioria venha a transitar para a versão injetável. Shirley Xerxes, de 89 anos, foi uma das primeiras pacientes a fazê-lo. A redução do tempo passado no hospital permitiu-lhe retomar pequenas rotinas, como cuidar do jardim, algo que antes ficava condicionado pelas longas esperas.
O pembrolizumab integra a classe das imunoterapias conhecidas como inibidores de checkpoint. Atua sobre a proteína PD-1, utilizada pelas células cancerígenas para bloquear a resposta do sistema imunitário. Ao interferir neste mecanismo, o medicamento permite que o organismo volte a identificar e a combater as células tumorais.
A substância foi aprovada em 2015 para o tratamento do melanoma avançado e, desde então, tem vindo a ser alargada a outros tipos de cancro. Em patologias como o cancro do pulmão de não pequenas células, os ensaios clínicos demonstraram aumentos significativos na esperança média de vida.
Ganhos também para o sistema de saúde
Os benefícios não se limitam aos doentes. A nova forma de administração elimina a necessidade de preparar bolsas intravenosas em ambiente controlado, um processo que exige tempo, recursos e equipas especializadas. A mudança traduz-se numa poupança de várias horas de trabalho hospitalar todas as semanas, libertando capacidade para outros cuidados.
As autoridades de saúde britânicas sublinham que tratamentos mais rápidos ajudam a reduzir a pressão sobre os serviços e tornam todo o percurso terapêutico menos desgastante. Organizações de apoio aos doentes oncológicos destacam igualmente a importância de passar menos tempo em ambientes hospitalares, sobretudo para quem está a conciliar o tratamento com trabalho, família ou outras responsabilidades.
Para muitos pacientes, o impacto é também psicológico e social. Claire Pearson, diagnosticada com melanoma, explicava que cada sessão a obrigava a ausentar-se do trabalho durante meio dia. Com a nova injeção, esse constrangimento praticamente desaparece, permitindo uma maior normalidade na vida profissional e familiar.
Segundo o The Times, esta inovação representa um passo relevante não apenas na eficácia clínica, mas na forma como os tratamentos oncológicos se integram na vida das pessoas, reduzindo o peso do hospital sem comprometer os resultados.
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