Quando a última partida de golfe terminou no buraco 18 do Kirkbrae Country Club, a maioria dos 144 jogadores que participaram este ano no torneio de golfe de angariação de fundos do Dia de Portugal de Rhode Island falava de um único homem. Não de uma pontuada nem de uma tacada em particular, mas de um herói de guerra de 106 anos que tinha passado o dia a superar, com claro à-vontade, adversários com um terço da sua idade.
O torneio, realizado a 13 de julho no Kirkbrae Country Club, em Lincoln, e liderado pelo organizador Aj Silva, é a principal fonte de angariação de fundos do Programa de Bolsas de Estudo do Dia de Portugal de Rhode Island, que este ano atribuirá seis bolsas de 2.000 dólares a estudantes de herança portuguesa que sigam percursos académicos ou de formação profissional. O programa, idealizado inicialmente por Artur Silva e Aj Silva, é hoje conduzido pela direção do Dia de Portugal de Rhode Island, juntamente com as diretoras do programa de bolsas, Augusta M. Costa e Isabel Laires Claro. Todos os anos, o programa abre portas a uma nova geração de estudantes luso-americanos que perseguem o seu próprio sonho americano.

Mas o torneio deste ano ficará marcado por outro motivo: a presença de Arthur Medeiros, de Bristol, um dos veteranos de combate vivos mais condecorados do estado de Rhode Island, e um homem cuja história de vida parece resumir a própria história do século XX.
Nascido em 1920, filho de imigrantes açorianos, Medeiros estava determinado a servir o seu país ainda antes de o país o chamar. Ainda jovem, falsificou a assinatura dos pais para se alistar precocemente. Foi formalmente recrutado em 1942 e enviado para a Europa com a 78.ª Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos.

A 6 de junho de 1944, o Dia D, Medeiros desembarcou na praia de Omaha, na segunda vaga da invasão da Normandia, uma das operações militares mais dramáticas da história moderna. Ferido no ataque, foi evacuado para um hospital na Inglaterra. Em vez de aguardar o fim da guerra em segurança, insistiu em regressar à linha da frente e reintegrou a sua unidade na Normandia.
A partir daí, Medeiros combateu em duas das campanhas mais brutais da guerra: a Batalha da Floresta de Hürtgen e a Batalha das Ardenas, suportando um dos invernos mais rigorosos que a Europa conheceu em décadas. Ferido várias vezes ao longo do serviço, viria a receber três Purple Hearts (Corações Púrpura), a Estrela de Prata (Silver Star), a Estrela de Bronze (Bronze Star), o Distintivo de Infantaria de Combate (Combat Infantryman Badge) e a Menção Presidencial de Unidade (Presidential Unit Citation), um registo de bravura partilhado por muito poucos veteranos ainda vivos dessa geração.

Para a comunidade luso-americana de Rhode Island, Arthur Medeiros representa algo que vai além das suas condecorações militares. É uma ponte viva entre os sacrifícios da geração da Segunda Guerra Mundial e o orgulho que a comunidade carrega hoje. Em 2024, regressou à Normandia para o 80.º aniversário do Dia D, um momento de fecho de ciclo, de regresso às praias onde desembarcava, como jovem soldado, oito décadas antes, em homenagem aos amigos e companheiros de armas que nunca voltaram a casa.
De volta a Rhode Island, Medeiros dedicou décadas a retribuir à comunidade que o viu crescer, promovendo a língua e a música portuguesas e dirigindo bandas filarmónicas de clubes portugueses locais. Já bem entrado no seu segundo século de vida, continua a jogar golfe várias vezes por semana, sendo conhecido entre os colegas de jogo pelo seu espírito competitivo, que não dá sinais de abrandar. E foi precisamente nos relvados do Kirkbrae Country Club que tantos golfistas puderam testemunhar, em primeira mão, esse mesmo espírito.
O Dia de Portugal de Rhode Island tem orgulho em reconhecer Arthur Medeiros não apenas como um herói de guerra, mas como um símbolo vivo da Portugalidade, prova de que a herança, a resiliência e a alegria de viver não se desvanecem com a idade. Com mais de 106 anos, continua a inspirar a comunidade a nunca permitir que a idade ou os obstáculos impeçam alguém de viver plenamente e de retribuir ao seu país e à sua comunidade.
















