Portugal poderá ter de fazer um ajustamento de 12 mil milhões de euros nos próximos dois anos se as metas orçamentais europeias não forem revistas. O alerta é de Mário Centeno, antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal.
Em entrevista ao programa Conversa Capital, da Antena 1 e do Jornal de Negócios, Centeno deixou críticas à condução das contas públicas e defendeu que o Governo deve explicar como pretende cumprir as metas definidas.
“Estamos a brincar com o fogo”
Centeno resumiu a preocupação com uma frase: “estamos a brincar com o fogo na questão do endividamento”.
O economista reagiu também às declarações do primeiro-ministro, Luís Montenegro, sobre o risco de Portugal voltar a enfrentar dificuldades financeiras e à afirmação de que não pretende ser o “pai da austeridade”.
Para Centeno, o Executivo deve concretizar os riscos que identifica. “Governar sob o medo é péssimo”, afirmou, questionando que informação terá o primeiro-ministro para fazer esses alertas.
Corte de 12 mil milhões se Bruxelas não mudar as metas
É neste contexto que surge um dos números mais relevantes da entrevista. Segundo Centeno, caso Bruxelas não reveja as metas orçamentais, o Estado terá de encontrar 12 mil milhões de euros nos próximos dois anos para as cumprir. Trata-se da avaliação feita pelo próprio economista, e não de um corte já anunciado pelo Governo.
O antigo ministro considera, por isso, que o Executivo deveria explicar onde faria esse ajustamento em vez de falar numa margem orçamental disponível para novas medidas.
Centeno contesta ainda a leitura feita sobre o saldo das contas públicas. O INE divulgou um excedente orçamental de 0,5% do PIB no primeiro semestre de 2026.
Segundo Centeno, porém, esse resultado inclui o excedente da Segurança Social e, na sua interpretação, não traduz a situação subjacente das restantes contas públicas, que classificou como estando num “défice profundo”.
Críticas também chegam às medidas para as famílias
O antigo ministro criticou medidas do Governo como a redução do IRS e a atribuição de um suplemento aos pensionistas para responder ao aumento do custo de vida. Mas as críticas não ficaram pelo Executivo.
Centeno mostrou-se igualmente crítico das propostas do PS e do Chega para aplicar IVA zero a produtos alimentares ou reduzir o IVA nos combustíveis, defendendo antes apoios mais direcionados para famílias e empresas, sobretudo nos setores mais afetados.
Na mesma entrevista, mostrou-se favorável a uma sobretaxa extraordinária e temporária sobre os lucros do setor petrolífero e questionou ainda a opção de investir 400 milhões de euros na aquisição de uma participação na REN.
A leitura de Centeno contrasta com a posição que o ministro das Finanças tem apresentado sobre a evolução orçamental. O ponto factual confirmado pelo INE é que as Administrações Públicas registaram um excedente de 0,5% do PIB na primeira metade de 2026; a existência de uma margem efetiva para novas medidas e a interpretação do saldo são objeto de divergência política e económica.
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