Nós, millennials, nascidos de 1981 a 1996 adoramos criticar a Gen Z. Talvez esteja na altura de admitir uma coisa menos confortável: fomos nós que ajudámos a construir o mundo em que eles cresceram.
Gostamos de gozar com eles.
Bebem menos. Preocupam-se demasiado com a saúde. Falam constantemente de saúde mental. Querem equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Fazem dancinhas no TikTok. Sonham ser influencers. Não percebem porque deveriam passar 12 horas num escritório para provar que trabalham.
E nós, millennials, olhamos para isto e perguntamos: “Mas o que aconteceu a esta geração?”
A resposta é simples.
Nós acontecemos.
Nós fomos ensinados: estudar, trabalhar, fazer dinheiro.
Nós crescemos com uma fórmula bastante clara.
Estuda. Tira um curso. Faz um mestrado. Se conseguires, acrescenta um MBA.
Arranja um bom emprego.
Trabalha mais do que os outros.
Sobe na carreira.
Faz networking.
Compra casa. Investe.
Faz dinheiro.
E depois acrescentámos uma regra que os nossos pais não tinham: mostra.
Não nos bastou ter sucesso. Quisemos que toda a gente soubesse que tínhamos sucesso.
Fomos nós que transformámos o LinkedIn numa montra de carreiras, o Instagram numa montra de vidas e as férias numa produção de conteúdos.
Fotografámos o brunch. O ginásio. O aeroporto. O hotel. O carro. A praia. O casamento. O primeiro dia no emprego. A promoção.
Até o café teve de ser fotografado antes de ser bebido.
E agora gozamos com as dancinhas?
Convenhamos.
Nós gozamos com um miúdo de 20 anos porque dança 15 segundos no TikTok?
Nós fotografávamos pratos de comida para pessoas que nem conhecíamos.
A Gen Z não inventou a necessidade de atenção.
Nós ajudámos a normalizá-la.
Eles simplesmente olharam para aquilo que nós fazíamos e profissionalizaram o conceito.
Nós publicávamos gratuitamente.
Eles perguntaram: “Quanto é que isto paga?”
E talvez sejam eles os inteligentes.
Nós ensinámos-lhes que o objetivo era ganhar dinheiro. Depois ficámos chocados quando perceberam que um vídeo viral podia render mais do que um mês inteiro num escritório.
Também lhes ensinámos que tudo tem de ser otimizado.
Nós contámos calorias.
Contámos passos.
Contámos seguidores.
Contámos likes.
Contámos horas de sono.
Contámos promoções.
Contámos salários.
Contámos investimentos.
Transformámos a vida numa gigantesca folha de Excel e depois ficámos surpreendidos porque a geração seguinte cresceu ansiosa com os números.
Fomos nós.
Nós criámos a cultura da produtividade permanente.
Eles criaram o “não vou destruir a minha saúde mental por uma empresa”.
E talvez, nesta parte, tenham percebido alguma coisa antes de nós.
E ainda gozamos porque bebem menos.
Esta talvez seja a parte mais absurda.
Nós crescemos numa cultura em que beber até às quatro da manhã era quase motivo de orgulho.
Ressaca? História para contar.
Noite que ninguém se lembra? Grande noite.
Agora aparece uma geração que bebe menos álcool, vai ao ginásio, preocupa-se com alimentação, sono e saúde e nós conseguimos transformar isso numa crítica.
“Esta geração já nem bebe.”
Fantástico!!!
Passámos décadas a dizer que os jovens deviam ter hábitos mais saudáveis.
Finalmente aparece uma geração a fazê-lo e nós respondemos:
“Que seca.”
Nós demos-lhes o manual
Esta é a parte que custa admitir.
Nós dissemos-lhes:
Estuda.
Trabalha.
Compete.
Faz dinheiro.
Viaja.
Tem experiências.
Cuida do corpo.
Constrói uma carreira.
Cria uma marca pessoal.
Mostra aquilo que fazes.
Não dependas de ninguém.
Procura liberdade financeira.
E depois entregámos-lhes um smartphone com Instagram, YouTube, TikTok e acesso instantâneo ao mundo inteiro.
O que é que esperávamos que acontecesse?
Nós queríamos subir na empresa.
Eles querem criar a própria empresa.
Nós queríamos uma promoção.
Eles querem monetizar uma audiência.
Nós queríamos um bom salário.
Eles querem independência.
Nós aceitávamos dez anos de carreira para chegar a algum lado.
Eles perguntam se existe um atalho.
E fomos precisamente nós que lhes ensinámos a procurar eficiência em tudo.
Talvez tenhamos sabotado a Gen Z.
É fácil dizer que eles têm pouca capacidade de atenção.
Que vivem agarrados ao telemóvel.
Que querem tudo imediatamente.
Que fazem dancinhas ridículas.
Que não querem trabalhar.
Mas talvez devêssemos fazer uma pergunta diferente: Quem fabricou, monetizou e no fim lhes mostrou este mundo?
Nós.
Nós transformámos sucesso em conteúdo.
Nós glorificámos produtividade.
Nós transformámos dinheiro em métrica de realização.
Nós colocámos a vida inteira dentro de um smartphone.
Nós ensinámos que atenção tem valor.
E depois ficámos surpreendidos quando eles aprenderam a jogar melhor do que nós.
Talvez a Gen Z não tenha destruído coisa nenhuma.
Talvez nós, millennials, tenhamos sabotado a Gen Z…
E o mais irritante é que eles pegaram no mundo que lhes deixámos, começaram a beber menos, recusaram algumas das nossas regras e ainda encontraram tempo para fazer uma dancinha no TikTok.
Talvez a piada seja mesmo sobre nós.
E não é mesmo?
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