Trinta mil mosquitos machos estéreis vão ser libertados hoje na freguesia de Alvalade, em Lisboa, numa nova ação integrada num projeto experimental que pretende, numa fase posterior, avaliar a possibilidade de reduzir a população do mosquito-tigre-asiático.
Ao todo, já foram libertados 60 mil mosquitos, estando prevista para esta quinta-feira a última libertação desta primeira fase, explicou à agência Lusa Afonso Moreira, médico de Saúde Pública da Unidade de Saúde Pública Francisco George, da Unidade Local de Saúde Santa Maria.
Os exemplares utilizados pertencem à espécie ‘Aedes albopictus’, conhecida como mosquito-tigre-asiático. Afonso Moreira explicou que, “por serem machos”, estes mosquitos não picam, uma vez que apenas as fêmeas necessitam de sangue.
Os insetos foram esterilizados antes da libertação e o objetivo é colocá-los em competição com os machos já existentes no território. “Foram esterilizados com uma técnica comprovada e segura e, quando os libertamos no espaço onde existia população deste mosquito, eles, no fundo, vão competir com os mosquitos machos que já existem no local, os mosquitos selvagens”, apontou.
Projeto quer avaliar dispersão, sobrevivência e reprodução
Afonso Moreira explicou que o objetivo final é avaliar se essa competição reduz a reprodução da espécie, uma vez que os acasalamentos com os machos estéreis não dão origem a descendência.
No entanto, o investigador ressalvou que nesta primeira fase o principal objetivo é perceber o comportamento dos exemplares libertados, nomeadamente a sua capacidade de dispersão e sobrevivência na área de intervenção.
Relativamente à segunda fase, Afonso Moreira adiantou que está prevista para maio do próximo ano, “caso os resultados da primeira etapa sejam favoráveis”.
“Nós prevemos que, por volta dessa altura, se tudo correr bem, possamos fazer exatamente esse estudo comparativo em que libertamos mosquitos numa zona e noutra zona controlamos. Depois tentamos perceber se há diferença numa zona semelhante àquela onde estamos”, explicou.
Técnica já foi utilizada noutros insetos
Segundo referiu o investigador, a técnica já foi aplicada noutros insetos, nomeadamente na “mosca da fruta”, tendo para o efeito sido desenvolvida uma iniciativa semelhante no Algarve.
Afonso Moreira sublinhou que o projeto de Lisboa está centrado no mosquito-tigre-asiático, “devido às suas implicações para a saúde pública”.
O ‘Aedes albopictus’ pode transmitir doenças como dengue, zika e febre-amarela, sendo que o risco surge se o mosquito picar uma pessoa infetada e, posteriormente, transmitir o agente a outra pessoa.
Eliminação de águas acumuladas continua a ser necessária
O responsável salientou que a libertação de mosquitos estéreis é apenas uma das medidas de controlo, defendendo a necessidade de se continuar a eliminar os locais onde esta espécie se reproduz, nomeadamente pequenas acumulações de água, em espaços públicos e privados.
Relativamente à escolha de Alvalade para a libertação dos mosquitos, Afonso Moreira justificou com as características da freguesia, nomeadamente a vegetação e os logradouros, que podem “proporcionar condições favoráveis ao desenvolvimento do mosquito”.
Este projeto é apoiado e financiado pela Agência Internacional de Energia Atómica e conta com a colaboração de entidades com experiência na produção e libertação de insetos estéreis, incluindo a empresa espanhola Tragsa.
Envolve ainda a Unidade de Saúde Pública Francisco George, a Direção-Geral da Saúde, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a Câmara Municipal de Lisboa e a Junta de Freguesia de Alvalade.















