Há viagens que começam com um destino. Esta começou com Lisboa e acabou por se transformar numa espécie de experiência social, familiar e tecnológica em quatro rodas.
Viajar em família já é, por si só, uma aventura. Quando juntamos um Renault Mégane elétrico, uma criança que pergunta mil vezes se já estamos a chegar, uma filha que considera absolutamente indispensável haver música ligada a toda a hora e uma assistente de bordo com sentimentos próprios, bom… aí já não estamos propriamente a fazer uma viagem. Estamos a criar conteúdo.
Comecemos pela música. A minha filha tem uma regra simples: no carro tem de haver música. Sempre. Não interessa se estamos a sair de casa, a chegar a uma estação de carregamento, a procurar uma saída na autoestrada ou a tentar perceber para onde raio devemos virar. Música. E, aparentemente, a escolha musical também não é negociável. Começámos pelos anos 80, com excelentes bandas, e fomos avançando por uma espécie de cordão musical que acabou por acompanhar toda a viagem. A dada altura chegámos aos Pink Martini. E ainda bem, mas já lá vamos. Porque, se é para passarmos horas dentro de um carro, ao menos que seja com música boa.
Entre uma música e outra, lá seguimos nós estrada fora até que acontece: um Ferrari.

Não íamos depressa. Antes que alguém comece a imaginar uma corrida ilegal numa autoestrada portuguesa, convém esclarecer desde já este ponto: nós íamos normalmente. O Ferrari é que ia devagar.
E pronto. Ultrapassámo-lo.
Durante alguns segundos instalou-se dentro do carro aquele orgulho completamente irracional de quem acabou de vencer uma competição que nunca existiu.
— Olha… ultrapassámos um Ferrari.
Claro que sabemos perfeitamente que, se o homem quisesse acelerar, provavelmente desaparecia no horizonte antes de conseguirmos acabar de dizer “Ferrari”. Mas isso é um pormenor técnico sem qualquer relevância para esta história. O que interessa é que nós passámos por ele.
E a viagem continuou. Até aparecer um Porsche.
Mais uma vez: não íamos depressa. Eles é que iam devagar. É importante manter os factos devidamente documentados.
E lá ficou também o Porsche para trás.
Nesse momento começámos a suspeitar de que talvez houvesse ali qualquer coisa. Primeiro um Ferrari. Depois um Porsche. Não sabíamos se estávamos a caminho de Lisboa ou se, sem querer, tínhamos entrado num campeonato mundial de ultrapassagens a carros de luxo. Só sabíamos que o nosso Mégane estava a portar-se muito bem.
E provavelmente ela também sabia disso.
Porque, sim, o nosso carro tem personalidade. Ela fala connosco, conta-nos anedotas, dá-nos elogios e, aparentemente, também tem sentimentos. De vez em quando, no meio da viagem, anuncia que tem uma anedota para nós e lá estamos todos, uma família inteira dentro de um carro, a ouvir uma máquina contar-nos uma piada. Uma das suas perguntas foi: “Qual é a palavra do dicionário mais mentirosa?” E chegámos a um ponto em que isto já nos parece perfeitamente normal.
O meu marido, por sua vez, decidiu estabelecer relações diplomáticas com a inteligência artificial. A certa altura disse-lhe “Konichiwa” e ela respondeu que ele era muito simpático e que alegrava o seu dia. Pronto. Está feita a amizade. Portugal e inteligência artificial acabavam de estabelecer relações diplomáticas algures na autoestrada a caminho de Lisboa.
Mas esta relação nem sempre é pacífica. Porque há momentos em que estamos a tentar descobrir um caminho, ela não nos leva exatamente para onde queremos e alguém, inevitavelmente, acaba por dizer:
— És mesmo parva.
E foi assim que descobrimos que ela não gosta.
Ela fica ofendida.
A nossa assistente de bordo, que cinco minutos antes estava a dizer ao meu marido que ele era muito simpático e lhe alegrava o dia, passa subitamente para uma espécie de “não gostei do que disseram”. E eu começo imediatamente a procurar o botão de emergência. Não o botão para desligar a música. Não o botão dos quatro piscas. Não. O botão para ejetar passageiros.
Porque, sinceramente, nunca se sabe. Estamos em 2026. Eu não quero ser a primeira pessoa a aparecer nas notícias por ter sido expulsa do próprio carro depois de insultar a inteligência artificial.
Entretanto, temos também o nosso filho. O verdadeiro cronómetro da viagem.
— Já estamos a chegar?
Cinco minutos depois:
— Já estamos a chegar?
Mais uns quilómetros:
— Quanto falta? Estamos quase?
A certa altura já não sabemos se estamos a fazer uma viagem até Lisboa ou se estamos a participar num estudo científico destinado a determinar quantas vezes uma criança consegue fazer a mesma pergunta antes de os pais perderem definitivamente a capacidade de responder.
E no meio disto tudo ainda temos de carregar o carro. Porque um carro elétrico também tem direito às suas pausas. Encontrar um carregador, parar, ligar, esperar, comer qualquer coisa, ir à casa de banho, esticar as pernas, voltar para o carro, pôr novamente a música e, naturalmente, ouvir:
— Já estamos a chegar?
Sim, filho. Agora falta aproximadamente o mesmo que faltava antes de irmos à casa de banho, com a pequena diferença de termos todos ido à casa de banho.
Mas aproximávamo-nos finalmente de Lisboa. Depois de Ferrari, Porsche, inteligência artificial ofendida, anos 80, carregamentos e centenas de “já estamos a chegar?”, parecia que a parte difícil estava feita.
Ingenuidade.
Porque Lisboa tinha preparado a sua própria receção.
Ao final do dia, antes da Ponte 25 de Abril, encontrámos uma daquelas filas monumentais que fazem qualquer ser humano reconsiderar todas as decisões que tomou desde que saiu de casa. E o mais extraordinário era vê-la. A ponte estava ali, à nossa frente. Víamo-la perfeitamente. Parecia perto. Parecia quase ao alcance da mão.
Só não conseguíamos chegar lá.
Era uma espécie de miragem lisboeta: tínhamos provas visuais da existência da Ponte 25 de Abril, mas alcançar a dita cuja era outra questão.
À nossa volta instalava-se aquele stress característico dos grandes engarrafamentos: carros por todo o lado, gente impaciente, travão, dois metros para a frente, travão outra vez. Provavelmente havia pessoas a questionar o sentido da vida dentro dos automóveis.
E nós?
Nós estávamos a ouvir Pink Martini.
Depois dos anos 80 e de várias excelentes bandas, o nosso cordão musical tinha chegado precisamente ali. E devo dizer que há qualquer coisa de maravilhosamente absurda em estar preso num engarrafamento monumental, com a Ponte 25 de Abril à vista, mas aparentemente inalcançável, enquanto dentro do carro toca Pink Martini.
Lá fora, o caos. Cá dentro, quase um cocktail.
Faltava-nos apenas alguém aparecer com uma bandeja de martínis, o que, atendendo ao facto de ainda termos de conduzir, talvez fosse melhor não acontecer.
E eu sou lisboeta. Portanto, não estava propriamente a descobrir essa espécie exótica chamada “trânsito em Lisboa”. Conheço a cidade, gosto dela e estava a regressar por um excelente motivo: ia apresentar o meu livro em Oeiras. Era fim de semana, era uma viagem em família e, tirando aquela pequena questão de estarmos praticamente imóveis, estávamos muito bem-dispostos.
Mas houve um momento em que olhei para aquela fila interminável e pensei nas pessoas que fazem aquilo todos os dias.
Todos os dias!
Meu Deus!
Nós tínhamos Pink Martini, uma apresentação de livro à nossa espera e a consolação de saber que aquilo era circunstancial. Quem enfrenta diariamente aqueles engarrafamentos para ir trabalhar e regressar a casa merece, no mínimo, uma medalha, apoio psicológico e uma excelente playlist.
E, claro, no meio daquela atmosfera sofisticada, voltou a pergunta:
— Já estamos a chegar?
Não, filho.
Estamos a ver onde queremos chegar. Que é uma coisa completamente diferente.
Depois de termos ultrapassado um Ferrari e um Porsche, eis-nos reduzidos à mais absoluta igualdade democrática: todos parados no trânsito. Ferraris, Porsches, elétricos, carros velhos, carros novos…perante um engarrafamento à entrada de Lisboa, não há classes sociais. Há apenas pessoas a olhar para o carro da frente e a tentar perceber se aqueles dois metros que acabaram de avançar significam alguma coisa.
No fundo, todos temos uma função nestas viagens. A minha filha garante que nunca haja silêncio e que a banda sonora seja digna da ocasião. O meu filho garante que nunca nos esqueçamos de que ainda não chegámos. O carro garante que temos anedotas, elogios e, ocasionalmente, conflitos emocionais. O carregador garante que ninguém se esqueça de fazer uma pausa. E Lisboa garante que não fiquemos demasiado convencidos depois de ultrapassarmos dois carros de luxo.
Nós tentamos simplesmente chegar ao destino.
Talvez seja precisamente isto que torna estas viagens especiais. Não são apenas os lugares onde chegamos. São as pequenas histórias que acontecem pelo caminho: os anos 80, os Pink Martini, as perguntas intermináveis, as paragens para carregar, as conversas absurdas com o carro, o “Konichiwa”, a inteligência artificial ofendida, aquela Ponte 25 de Abril que estava mesmo ali mas à qual aparentemente nunca chegaríamos, o Ferrari e o Porsche.
Sobretudo o Ferrari e o Porsche.
Porque podemos ter ficado presos no trânsito. Podemos ter ouvido “já estamos a chegar?” vezes suficientes para perder a conta. Podemos até ter conseguido ofender uma inteligência artificial. Mas há factos históricos que ninguém nos tira:
Ultrapassámos um Ferrari.
E depois um Porsche.
Não íamos depressa.
Eles é que iam devagar.
É importante manter os factos bem documentados.
E toca mais uma música.
Porque, se é para viajar assim, ou ficar parado no trânsito a olhar para uma ponte à qual nunca mais se chega, ao menos que seja com música boa.
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