A consagração pública de figuras culturais é, na Assembleia Municipal de Faro, um espaço habitual e quase automático de consenso institucional, onde o mérito da obra se sobrepõe à opinião e o reconhecimento formal se separa da intervenção cívica do homenageado. Os votos de louvor e de pesar têm historicamente refletido esse entendimento alargado: são momentos de convergência, não de confronto, em que o simbolismo do gesto prevalece sobre a disputa ideológica. Foi por isso particularmente revelador que, na última sessão de 2025, esse consenso tenha sido quebrado a propósito de um voto de louvor a Lídia Jorge – escritora maior, referência nacional e “património do Algarve” – levantando uma questão incómoda: até que ponto é possível separar a arte do artista quando a sua voz pública desafia certos projetos políticos?
O que poderia ter sido mais um ato formal, aprovado sem sobressalto e destinado a ocupar algumas linhas discretas na ata, transformou-se, afinal, num episódio politicamente revelador. O voto de louvor a Lídia Jorge reuniu o apoio do PSD, IL, PAN, LIVRE e PS, contou com a abstenção do CDS-PP e enfrentou seis votos contra do CHEGA. Uma oposição que não nasce de qualquer controvérsia literária ou institucional, mas antes de um incómodo ideológico: o de reconhecer publicamente uma escritora cuja palavra não se submete à narrativa do partido.
O desacordo levanta, porém, uma pergunta simples: o que torna Lídia Jorge indigna de reconhecimento institucional aos olhos do partido CHEGA? A resposta não se encontra na sua obra literária, amplamente estudada, premiada e respeitada, mas antes na sua intervenção cívica. Nas comemorações oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em Lagos, a escritora ousou cometer uma sucessão de “infrações ideológicas”: citou estudos históricos que demonstram que ninguém em Portugal tem “sangue puro” (uma inconveniência para projetos políticos obcecados com fronteiras identitárias), apelou a valores humanistas e inclusivos (um clássico fora de moda nos manuais extremistas) e criticou o recurso sistemático à ofensa como método político.
Lídia Jorge fez aquilo que se espera de uma intelectual numa democracia: pensou em voz alta. O problema é que, para partidos que vivem da criação permanente de inimigos (imigrantes, elites, artistas ou qualquer bode expiatório disponível) a palavra ponderada é sempre mais perigosa do que o insulto fácil. Separar a arte do artista torna-se, assim, impossível quando a própria existência do artista lembra que a cultura não se verga à cartilha do ressentimento.
O voto de louvor acabou por ser aprovado por maioria, como seria expectável. Ainda assim, fica a nota, não escrita na ata, mas evidente no sentido de voto: Literatura? Uso sujeito a aprovação ideológica.
Leia também: A Juventude que o PS deixou à porta da Assembleia Municipal | Por Adriana Martins
















