Em pleno século XXI, quando os portugueses enfrentam uma crise habitacional crónica e assistem, sem grande surpresa, ao envelhecimento acelerado da sua população, a Assembleia da República parece ter encontrado uma prioridade linguística digna de tratado filosófico: distinguir o deputado fanfarrão daquele que, apenas, recorre à fanfarronice.
Foi durante uma sessão que se pretendia ordinária — mas que rapidamente se revelou extraordinária pela ausência de substância — que o Presidente da Assembleia proferiu a sentença que ecoou nos corredores como um aforismo incompreendido: “O fanfarrão ofende. Quem pratica fanfarronice, entretém.”

Jurista
Enquanto cada frase é dissecada com zelo cirúrgico, a realidade espera — pacientemente, como sempre — pelo dia em que a fanfarronice ceda lugar à ação
Não se trata aqui de mera retórica. Trata-se de um novo paradigma legislativo, onde a semântica ultrapassa a semiótica da governação e os dicionários se tornam instrumentos de poder. Enquanto isso, lá fora, os portugueses aguardam silenciosamente que os telhados não caiam, que haja espaço para viver e que alguém se lembre de que o país real se faz com tijolos e berços — e não com vírgulas e verbos no subjuntivo. Mas na sala do Parlamento, o tempo é generoso com os discursos e avaro com os atos.
Talvez Portugal tenha sido condenado a ser um país onde os problemas se enfrentam com sintaxe e os avanços se medem em parágrafos. E enquanto cada frase é dissecada com zelo cirúrgico, a realidade espera — pacientemente, como sempre — pelo dia em que a fanfarronice ceda lugar à ação.
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