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JOSÉ FIGUEIREDO SANTOS - Sociólogo e professor universitário jubilado. Foto DR
Opinião

Contra o aborto | Por José Figueiredo Santos

“Talvez a primeira obrigação de uma sociedade que se diz civilizada seja não exigir a uma criança violada que pague, com o resto da sua vida, pelas puras e duras convicções dos adultos”

17:20 20 Agosto, 2026 17:34 20 Agosto, 2026
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Sou contra o aborto. Inequivocamente.

Quem não o é?

Haverá alguém que o deseje como quem deseja um café, uma viagem, uma mudança de mobiliário? Haverá mulher ou homem que encontre prazer nessa interrupção, que a procure com a ligeireza com que se escolhe entre um doce e um salgado, entre isto e aquilo, sem que fique na consciência uma sombra, uma marca, uma pequena ruína?

Não creio.

O aborto não é uma banalidade. Nunca foi. Não é uma operação administrativa da existência, uma pequena alteração de calendário, um gesto sem peso. Há nele qualquer coisa de grave, de definitivo, de dolorosamente humano.

E, no entanto, há quem o aceite e quem o defenda. Há quem o considere necessário em determinadas circunstâncias.

Compreendo que assim seja.

O que não compreendo — o que me inquieta, o que me parece moralmente insuportável — é esta nova febre de certezas que vai percorrendo o país, com a solenidade dos sermões e a delicadeza de um demolidor martelo pneumático.

Porque há ideias que se dizem simplesmente com a boca. E há outras que, uma vez pronunciadas, parecem exigir que alguém pague por elas.

Esta é uma delas.

Uma menina de treze anos, violada pelo próprio pai, engravida.

E há quem diga, em nome da vida, que ela deve levar a gravidez até ao fim.

É difícil escrever esta frase sem sentir que alguma coisa dentro dela está profundamente errada.

Não venho aqui colocar em equação a velha querela sobre o aborto. Não me interessa, neste momento, a batalha interminável das definições: quando começa a vida, quando começa a pessoa, quando uma existência deixa de ser possibilidade e passa a ser, para nós, uma realidade moral. São questões antigas, enormes, legítimas. Têm alimentado filósofos, teólogos, juristas e políticos — e continuarão, provavelmente, a alimentá-los até que já não reste ninguém para lhes responder.

Mas há momentos em que a metafísica deve abandonar a sala.

Porque aqui está uma menina de treze anos. Uma criança que deveria estar a descobrir o mundo, e não a descobrir que o mundo pode ser uma coisa monstruosa.

Uma menina que deveria correr para a descoberta o próprio corpo como quem descobre uma casa: com curiosidade, com pudor, com liberdade. E apareceu um homem abjeto — o próprio pai — autor de um estupro que lhe arrombou a porta.

Roubou-lhe o direito de dizer não. E depois deste crime aparece aquela sociedade, bem composta, muito grave, muito cheia de princípios, para lhe explicar que talvez também não tenha direito a dizer sim.

Primeiro, o pai tomou posse do seu tenro corpo. Depois, há quem lhe queira tomar posse do destino.

Eis o curioso da violência: a sua frequente mudança de roupagem.

A primeira violência vem com brutalidade. Tem força, medo, crime. Arromba a porta.

A segunda chega muito mais bem vestida. Faz-se acompanhar de discursos, de princípios, de palavras como “vida”, “moral”, “dever”, “sacrifício”. Traz, em vez de um punho, uma certeza. Em vez de um criminoso, às vezes traz uma convicção.

Mas, no fim, a mensagem pode ser a mesma: o teu corpo já não te pertence.

É isto que me revolta.

O homem que cometeu o crime poderá ser julgado. Poderá sentar-se perante um tribunal, ouvir uma sentença, entrar numa prisão. A justiça, pelo menos em teoria, saberá onde colocá-lo.

Mas a menina? Esta submete-se a levar o crime consigo. Leva-o no corpo e na alma durante nove meses. Leva-o para o hospital, para a sala de parto. Leva-o para as noites em que, horrorizada, não conseguir dormir. Leva-o para os anos seguintes, talvez para toda a vida como um impositivo ferrete.

E nós, muito tranquilos, poderemos dizer-lhe que tudo isso constitui o preço necessário para a preservação dos nossos princípios.

Que extraordinária forma de generosidade: exigir o sacrifício ao outro para podermos conservar intacta a rústica pureza da nossa consciência.

E há quem chame a isto defender a vida. Mas de que vida falamos?

Porque a vida não é apenas aquilo que começa.

A vida é também aquilo que continua.

É amanhã. É crescimento. É liberdade. É a possibilidade de uma criança voltar, um dia, a olhar para o próprio corpo sem o sentir como um local do crime.

É poder voltar a habitar a própria pele. E isso também é vida.

Não digo que o aborto seja simples. Não digo sequer que seja moralmente indiferente. Muito pelo contrário.

É precisamente porque não o considero uma prática ligeira que me recuso a tratar com leviandade a mulher que se encontra perante essa decisão.

Há ali uma gravidade que não desaparece porque a circunstância é terrível.

Mas há outra gravidade. A da violência. E esta não pode ser escondida debaixo de uma qualquer palavra sagrada.

Vida. É uma palavra encantadora, melodiosa, com uma sonoridade linda. Tão bonita que se presta admiravelmente a todos os abusos.

Em seu nome fizeram-se guerras, queimaram-se hereges, condenaram-se pecadores, obrigaram-se mulheres a obedecer e ensinaram-se crianças a sofrer com dignidade.

A dignidade do sofrimento dos Outros é, aliás, uma das formas mais confortáveis de crueldade. Porque quem sofre somos sempre nós muito pouco. É o Outro que leva o princípio às costas. É o Outro que suporta a consequência. É o Outro que se desfaz em choro.

Nós ficamos com a doutrina — limpa, intacta, impecável.

E assim, pouco a pouco, a moral transforma-se numa espécie de mobiliário doméstico: fica muito bem na sala, sobretudo quando quem a contempla não é quem terá de viver com ela.

Mas uma moral que não sabe ajoelhar-se diante do sofrimento alheio acaba por ficar cega de tanto olhar para o princípio. E há princípios que, quando deixam de ver o rosto humano, começam a parecer calhaus irregulares, com arestas vivas e pontiagudas.

Pedras com as quais, naturalmente, alguém se dispõe sempre a apedrejar-nos.

Diante desta menina, antes da doutrina, existe uma violação. Antes do debate jurídico, existe uma infância destruída.

Antes da discussão sobre o estatuto moral do feto, existe uma criança de treze anos que já sofreu uma violência que nenhum adulto deveria permitir.

E então a pergunta deveria ser outra.

Não apenas: o que deve esta menina à vida que cresce dentro dela?

Mas: o que devemos nós à menina que está diante de nós?

Devemos-lhe proteção, cuidado, tempo. Devemos-lhe, tanto quanto ainda for possível, uma pequena restituição da liberdade que lhe foi roubada.

Deveríamos repudiar, estar a acrescentar uma nova submissão à violência que já sofreu.

Porque existe uma coisa extraordinária nesta discussão: todos parecem muito preocupados com a vida que ainda não fala, mas há uma vida que fala — ou que talvez já nem consiga falar — e essa vida está ali, diante de nós.

Tem treze anos.

Tem medo.

Tem um corpo.

Tem uma memória.

Tem um futuro.

E, sobretudo, tem um crime cometido contra ela.

Talvez o nosso maior erro seja confundir o direito de defender uma convicção com o direito de impor essa convicção sobre o corpo de quem já foi violentado.

Uma sociedade pode ter fé, leis, princípios. Pode acreditar possuir a verdade absoluta sobre o começo da vida.

O que não pode é permitir que a certeza se torne uma forma elegante de crueldade.

Porque a certeza, quando perde a compaixão, torna-se apenas arrogância repleta de boa gramática.

E é talvez isso o que mais me assusta nesta discussão: a facilidade com que algumas pessoas, protegidas pela abstração dos seus princípios, conseguem infligir o sofrimento concreto a uma criança e dizer, com a serenidade dos que não terão de suportá-lo: ela deve continuar.

Ela. Não nós. Ela.

A menina que foi violada, que não escolheu o crime, que não escolheu a gravidez, que terá de carregar no corpo a consequência de uma violência que não praticou.

É fácil defender o sacrifício quando o sacrificado é o Outro. É fácil falar da santidade da vida quando não somos nós que teremos de atravessar o inferno para a preservar.

E talvez seja esta a contradição que deveríamos ter a coragem de encarar.

Queremos salvar a vida que ainda não pode falar — e, para isso, aceitamos esmagar a voz daquela que já está diante de nós.

Chamamos a isso princípio. Eu pergunto se não será, por vezes, apenas uma maneira muito bem vestida de não olhar para a vítima. Porque defender a vida não pode significar simplesmente impedir que uma vida termine.

A vida é mais exigente do que isso. É proteger. É amparar. É devolver liberdade.

É permitir que alguém, depois da violência, volte a sentir que o seu corpo é seu, que o seu futuro é seu, que a sua existência não ficou para sempre nas manápulas de quem a feriu.

Talvez defender a vida comece, afinal, por uma coisa muito mais simples — e muito mais difícil — do que proclamar princípios.

Comece por escutar. Escutar a menina. Olhar para ela de olhos abertos.

Perceber que, antes de ser um caso, um argumento, uma estatística, um símbolo ou uma trincheira moral, ela é uma criança.

E que talvez a primeira obrigação de uma sociedade que se diz civilizada seja não exigir a uma criança violada que pague, com o resto da sua vida, pelas puras e duras convicções dos adultos.

Leia tambem: O eclipse da consciência | Por José Figueiredo Santos

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