Lia-se nos anais da História — embora ninguém soubesse muito bem quem ainda os lia — que, em 2026, ocorreu um eclipse.
Durante alguns minutos, a Lua, essa velha sorrateira, decidiu atravessar-se entre o Sol, o planeta Mãe e a Humanidade. Foi um gesto de considerável atrevimento, sobretudo porque a Humanidade já nessa época se julgava autorizada a meter-se em praticamente tudo.
Nessa altura, já havia aparelhos com alguma sofisticação tecnológica, vulgo conhecidos por telemóveis, destinados a fotografar até aquilo que o pessoal não compreendia. Mas não houve quem não levantasse os olhos para o céu com óculos de cartão certificados.
Foi, talvez, um dos últimos grandes consensos da espécie humana.
Milhões de pessoas interromperam por alguns minutos a consulta do saldo bancário, as discussões políticas, o envio de fotografias da comida, a vigilância da vida alheia e a produção de opiniões sobre assuntos que desconheciam para contemplar uma coisa que não podiam controlar, comprar, cancelar ou bloquear.
Houve espanto, muita ansiedade, pouca ciência, mas milhões de fotos batidas.
Tiveram lugar transmissões televisivas, especialistas explicando a mecânica celeste, comerciantes vendendo recordações do fenómeno e bebidas mais caras pela oferta de óculos, influenciadores a fazerem vídeos sobre o eclipse e, em sombra de dúvida, turistas a pagarem fortunas para contemplarem durante alguns minutos a sombra da Lua.
Houve até quem se apressasse, receando que o eclipse, à semelhança de certas experiências humanas de natureza mais íntima, terminasse antes de ter começado verdadeiramente.
E a unanimidade humana ditava que todos olhassem para cima.
Depois, a Lua passou, o Sol regressou, deixando tudo às claras, os telemóveis voltaram a recuperar a sua importância na vida quotidiana e a Humanidade retomou a sua ocupação preferida: olhar para baixo e voltar a enterrar a cabeça na areia.
Voltou a olhar estupefacta para o ecrã, para o saldo da conta, para a renda da casa, para o preço anterior do combustível que também se tinha eclipsado e para a própria imagem.
Mas ninguém desesperou porque, rezam os achados arqueológicos que o eclipse seguinte seria em agosto de 2027, podendo contar também com o pessoal de férias para abraçar o evento sem o cansaço de um dia de trabalho. Chamaram-lhe o “eclipse do século”.
Além do mais, os historiadores esfregaram as mãos de contentamento porque, à semelhança de 2026, em 2144, haveria um novo eclipse para óculos certificados. Os investigadores sabiam do antecipado sucesso que o novo fenómeno colheria, porque tinham encontrado nos arquivos digitais, ainda em bom estado de conservação, milhares de milhões de imagens, comentários, análises científicas, vídeos, memes, documentários, anúncios e transações comerciais, bem como discursos emocionados acerca da maravilha do Universo.
A perplexidade da descoberta residiu apenas no facto de não terem encontrado indícios suficientemente fortes de uma sólida consciência, ao que deduziram, que, por lapso, não teria sido arquivada.
Porquê aqueles indivíduos já avançados no conhecimento digital não teriam fotografado a consciência, nem a haviam transmitido em direto? Não se sabia. Porquê a consciência não recebeu likes nem teve seguidores?
Porquê, no fenómeno repetido em 2144, os historiadores não conseguiram descobrir nas camadas do celestial ozono, vestígios de qualquer relíquia intelectual, semelhante à honestidade, à vergonha, à contemplação ou à capacidade — hoje já quase arqueológica — de permanecer alguns minutos em silêncio sem sentir imediatamente a necessidade de consultar um dispositivo.
Estamos em 2150 e continuamos perplexos. Estamos extraordinariamente informados e robóticos, conhecemos a órbita exata dos planetas de uma galáxia distante, e os seus nomes, tratando a todos por tu, mas, à semelhança de 2026, continuamos sem saber o nome dos vizinhos do lado e não faltam as más línguas afiadas do costume a afirmar que continuamos desesperadamente alienados tal como nesses anos recuados.
Conhecemos, através de sofisticados sistemas biométricos, todas as probabilidades estatísticas da nossa própria morte, mas, hoje, tal como naquela altura de antanho, continuamos sem saber para que vivemos.
Temos máquinas capazes de responder a qualquer pergunta e uma incapacidade quase absoluta para formular as perguntas importantes. Possuímos máquinas que sabem tudo sobre o mundo e cada vez menos sobre nós próprios.
Agora, em 2050, felizmente que viajamos para Marte com a mesma naturalidade com que atravessamos a fronteira com a Espanha, mas, temos a perceção de continuar a viver entre civilização e barbárie, e que ainda não teremos aprendido a ser humanos.
Esta perceção parece confirmada por sucessivos governos de que a inteligência se multiplicou enquanto a sabedoria continua em contenção. A informação transformou-se em avalanche sem que ainda se tenha convertido em conhecimento. Temos um conhecimento que ainda não fez a sua deriva no carácter.
A civilização e a cultura, esses palavrões tão enigmáticos com que costumamos batizar o nosso próprio orgulho, parecem continuar a não passar muitas vezes de uma camada de verniz deslizante sobre instintos ancestrais, os mesmos que governavam os nossos antepassados quando ainda resolviam divergências com pedras.
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