Dizia um facebookiano — acho que lhe posso chamar assim sem perigo de o ofender — que vivemos obcecados pelo instantâneo, esse lugar onde a futilidade e o consumo rápido da informação se encontraram, casaram e, ao que parece, já têm filhos nas redes sociais.
A comunicação social e as redes renderam-se ao espetáculo diário dos escassos segundos: o vídeo viral, a polémica de estimação, a indignação pronta a servir, tudo bem embalado para consumo imediato. A profundidade, essa senhora pouco dada a correrias, foi ficando para trás, sacrificada no altar do impacto e da reação rápida.
O referido senhor escrevia, a propósito do eclipse solar, coisa mais ou menos assim:
“Para a cultura do ecrã, o alinhamento dos astros reduz-se à aquisição de óculos especiais ou a uma corrida desenfreada aos melhores locais para observar uns segundos de escuridão.”
E tinha razão numa coisa: o eclipse, esse acontecimento com milhares de milhões de anos de existência, foi convertido, a preceito, num acontecimento de alguns minutos. O Universo trabalhou durante uma eternidade para nos proporcionar o espetáculo e nós tratámos de o adaptar à grelha televisiva.
E o senhor não se cansava de repetir: “É o jornalismo do encanta burros e dos faits divers, repetido até à náusea. A populaça — palavra que aqui utilizo apenas por empréstimo e sem qualquer intenção de insultar a populaça, que também tem direito aos seus momentos de glória — rende-se ao deslumbramento fugaz de um instante e ao prazer, esse sim verdadeiramente contemporâneo, de poder declarar:
“EU VI O ECLIPSE”.
Ora, não basta ter visto. É preciso ter provas. Uma fotografia, um vídeo, uma publicação, meia dúzia de likes. O fenómeno astronómico passa pelo céu, mas a experiência só parece completar-se quando passa pelo telemóvel.
Baudelaire, que não possuía redes sociais e por isso talvez não possa ser considerado autoridade nesta matéria, já havia caracterizado a modernidade como “o transitório, o efémero, o contingente”. Só que, no seu tempo, o efémero tinha ainda a delicadeza de desaparecer. Hoje desaparece e deixa um arquivo.
O nosso facebookiano queria, porém, chamar a atenção para outra coisa: para a dimensão científica do fenómeno, para os esforços humanos destinados a compreendê-lo, prevê-lo e explicá-lo. Tudo isso, dizia ele, ficaria secundarizado perante o espetáculo. O cosmos seria reduzido a conteúdo de consumo rápido e a ciência transformada em nota de rodapé de um acontecimento suficientemente vistoso para garantir audiências.
E aqui começa a história verdadeiramente engraçada.
Porque o eclipse, entretanto, também se tornou mercadoria.
Havia óculos certificados, locais privilegiados, reservas, comércio, ansiedade. Havia, naturalmente, pessoas que tinham reservado os óculos para ver o eclipse e que esperavam que ninguém lhes roubasse o lugar, nem no céu nem na fila.
Os óculos, esses, conheceriam destino semelhante ao próprio eclipse: desapareceriam rapidamente do mercado.
A Associação Nacional de Farmácias, perante a inesperada transformação de um acessório em artigo de quase necessidade pública, procuraria acautelar a clientela que havia feito reserva. Afinal, a fidelização do cliente é uma coisa séria. Mesmo quando o cliente só pretende olhar para o Sol durante alguns minutos e depois nunca mais precisar de comprar aqueles óculos na vida.
Mas eis que o povo — aquele povo de que tantas vezes se fala, sobretudo quando convém falar em seu nome — começou a responder.
“Chico-esperto com teorias que só interessam aos cientistas. Estava tão bem calado.”
Outro, mais expedito, aconselhava:
“Deixem-se de relatos frustrados. Alguém vos obrigou a ver? Voltem para a caverna.”
É uma resposta interessante. Sobretudo porque há qualquer coisa de platónico na sugestão. A questão é que, nesta versão, os habitantes da caverna não estão a olhar para sombras projetadas na parede: estão a filmá-las para as publicar nas redes sociais.
O nosso crítico insistia:
“Ao reduzirmos o cosmos e o saber a meros conteúdos de consumo rápido, continuamos a preferir a espuma do entretenimento passageiro em vez de informar — e ensinar — sobre a verdadeira importância de um determinado fenómeno para a investigação científica.”
Era, no fundo, uma crítica à sobre-espetacularização.
Nada contra o eclipse. Nada contra os óculos. Nada contra a televisão, as fotografias ou mesmo os likes. Tratava-se apenas de pedir à imprensa que não confundisse um fenómeno astronómico com a inauguração de um centro comercial.
O problema está no equilíbrio.
O sensacionalismo exige antecipação. Depois, mais antecipação. Depois, a contagem decrescente. Depois, a contagem decrescente da contagem decrescente. Depois, o direto. Depois, o momento. Depois, as imagens do momento. Depois, as melhores imagens do momento. E, finalmente, os comentários às melhores imagens do momento.
O eclipse pode durar alguns minutos. A sua exploração mediática, essa, tem uma resistência verdadeiramente astronómica.
Há também a comercialização. Marcas, merchandising, óculos, viagens, locais privilegiados, transmissões especiais. O eclipse, que durante séculos foi capaz de inspirar medo, assombro e até interpretações religiosas, chega à modernidade devidamente acompanhado de um código de barras.
Weber falou do desencantamento do mundo, através da racionalização e da técnica. Talvez hoje pudéssemos acrescentar-lhe uma pequena nota de rodapé: o mundo não é apenas desencantado pela técnica; pode também ser transformado em produto.
O eclipse é particularmente bom para isso.
Tem imagem, suspense, escuridão. Tem luz, duração limitada. Tem milhões de espectadores e potencial fotográfico. Tem calendário, especialistas, gráficos, aplicações, óculos. Tem, sobretudo, aquilo que qualquer acontecimento mediático moderno deseja desesperadamente ter: uma boa oportunidade para alguém dizer “eu estava lá”.
E estar lá já não significa necessariamente ter estado lá.
Pode significar o imperativo de ter sido fotografado, publicado, recebido comentários. Pode significar que alguém, algures, carregou num pequeno coração vermelho.
A experiência passou a precisar de testemunhas.
O indivíduo não contempla apenas o eclipse: documenta a contemplação. Não olha apenas para o céu: olha para o céu através de um dispositivo que, por sua vez, lhe permite mostrar aos outros que esteve a olhar para o céu.
É uma espécie de contemplação com recibo.
E assim o eclipse deixa de ser apenas um fenómeno físico e transforma-se num produto visual consumível, integrado na simulação digital em que os ecrãs, por vezes, parecem substituir a própria observação direta.
Com efeito, não é fácil pedir ao cidadão comum que identifique na mercantilização de um eclipse um sintoma daquilo a que Guy Debord chamou a “Sociedade do Espetáculo”. O cidadão comum tem coisas mais urgentes para fazer. Por exemplo, descobrir se a fotografia que tirou ficou suficientemente boa para o Instagram.
Mas a questão permanece.
Ao privilegiar quase exclusivamente o espetáculo visual, a cobertura mediática corre o risco de sacrificar a explicação científica, a astrofísica, as consequências ambientais, os processos de previsão e todos os conhecimentos que tornam o fenómeno verdadeiramente extraordinário.
Porque o extraordinário não é apenas o facto de a Lua tapar o Sol. O extraordinário é sabermos porquê, como, quando e com que consequências. É que alguém tenha conseguido calcular que isso iria acontecer.
O extraordinário é que uma espécie que durante milénios olhou para o céu com medo tenha chegado ao ponto de conseguir prever a sombra com uma precisão quase obscena.
Mas isso talvez seja menos fotogénico.
E é aqui que reside a ironia de tudo isto: o público é treinado para consumir o acontecimento mediático em vez do acontecimento natural. O eclipse passa a valer não apenas pelo que é, mas pelo número de pessoas que o viram, fotografaram, comentaram e partilharam.
Durante semanas, a máquina mediática preparara o grande momento. Chegado o dia, milhões de pessoas olham para cima durante alguns minutos. Muitas olham através dos óculos. Outras através da objetiva. Outras, provavelmente, através do ecrã de alguém que está a transmitir o eclipse em direto.
Depois, tudo acaba.
A Lua segue o seu caminho. O Sol volta à sua condição de Sol. As pessoas regressam a casa. Os óculos vão para uma gaveta — ou para o lixo. As televisões mudam de assunto. E o eclipse, depois de ter sido durante semanas o mundano acontecimento mundial, começa a desaparecer da memória com a mesma rapidez com que desaparece da programação.
Ficam a fotografia, o vídeo e os likes. E talvez também fique, se tivermos alguma sorte, uma pergunta um pouco mais incómoda: vimos realmente o eclipse ou vimos sobretudo a nossa própria necessidade de dizer que o vimos?
As redes sociais podem, sem dúvida, ser um extraordinário instrumento de difusão cultural. Mas difundir cultura não é necessariamente democratizá-la.
Para isso, seria preciso que, depois de levantarmos os olhos para o céu, tivéssemos ainda alguma vontade de perceber o que estamos a ver.
E talvez essa seja a parte mais difícil.
Afinal, é muito mais fácil conseguir um like do que compreender o Universo.
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