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JOSÉ FIGUEIREDO SANTOS - Sociólogo e professor universitário jubilado. Foto DR
Desporto, Opinião, Política

Política, futebol, religião e outras armas brancas | Por José Figueiredo Santos

“Descobri, da pior forma, que debater política, futebol ou religião é o equivalente intelectual a tentar apagar um incêndio num quintal da Beira”

14:43 12 Agosto, 2026 14:44 12 Agosto, 2026 | Cristina Mendonça
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Depois de fazer uma pequena viagem no tempo pelo ambiente político do meu país — marcado por uma polarização cada vez mais vigorosa, uma instabilidade que já parece ter residência própria e um Parlamento onde os ânimos se exaltam com a facilidade de uma torradeira digital mal ligada — tomei uma decisão.

Uma decisão irrevogável. Inabalável. Definitiva.

Proibi-me de falar sobre política, futebol e religião em qualquer conversa social.

Garanto que não foi por cagufa. Também não foi gestão estratégica de risco, embora, olhando para trás, talvez devesse ter sido. Foi mais uma questão de sobrevivência. E, nesta fase da vida, sobreviver começa a parecer-me uma excelente política de Estado.

Cheguei à conclusão de que discutir estes três assuntos neste pequeno país constitui uma atividade de alto risco, apenas ligeiramente abaixo do atravessamento de uma autoestrada de olhos vendados, mas com a vantagem de, pelo menos, na autoestrada sabermos de onde vêm os carros.

Descobri, da pior forma, que debater política, futebol ou religião é o equivalente intelectual a tentar apagar um incêndio num quintal da Beira, onde antigamente se cozinhava no exterior para evitar transformar a casa numa sauna, atirando para a fogueira baldes de aguardente de zimbro. Ou de qualquer outra bebida branca ou amarelada suficientemente alcoólica para desinfetar uma ferida, uma consciência ou, em caso de emergência, uma relação familiar.

Nestes assuntos, a razão raramente passa da soleira da porta. Não há argumentos. Há convicções fortíssimas. E uma convicção, quando é suficientemente forte, dispensa completamente os factos. Os factos, aliás, têm hoje uma reputação bastante má. São incómodos, contraditórios e, pior ainda, obrigam a pensar.

A paixão tomou conta do debate público com tal intensidade que uma pessoa sensata, educada e com uma profissão respeitável consegue, em poucos segundos, transformar uma dobradura de guardanapo num estandarte, um palito numa arma branca e uma opinião sobre o IVA numa questão de honra nacional.

Foi assim que percebi que a civilização é uma coisa muito frágil.

Tudo culminou num fatídico almoço de domingo.

Nesse dia, prometi a mim próprio manter uma neutralidade argumentativa digna de Charles-Maurice de Talleyrand. Ou, mais realisticamente, de alguém que tivesse aprendido a técnica diplomática de sobrevivência a uma refeição de família sem ser expulso pela própria.

Decidido a não provocar qualquer faísca, mantive-me calado enquanto o meu vizinho de mesa, entre gestos inflamados e perdigotos de restos de figo em trajetória balística, explicava como resolveria a inflação mundial — problema que, aparentemente, aguardava apenas pela sua chegada à sobremesa.

O plano parecia sólido. Começava por acabar com os monopólios, passava por prender meia dúzia de banqueiros e terminava com uma imperial bem tirada.

Não quis contrariá-lo. Limitei-me a comer.

Até que, numa tentativa desesperada de desviar a conversa para um tema absolutamente inofensivo, olhei para o prato e disse, com a voz serena:

— Que tom de dourado-avermelhado tão bonito tem este arroz de lingueirão malandrinho.

Foi o princípio do fim. O meu companheiro da frente, adepto ferrenho de um clube rival, que tem listas verticais que mais parecem um código de barras gigante ou o pijama lá de casa, pousou o copo com a delicadeza de quem acaba de receber uma convocatória judicial. Bateu com a colher da sopa no prato e disparou, de olhos esbugalhados:

— Vermelho?! Estás a insinuar que a culpa do penálti de domingo foi da arbitragem, só por causa da cor do molho?!

Fiquei imóvel. Naquele instante percebi que o arroz também era um manifesto. O lingueirão estava besuntado com fermento ideológico e o molho tinha escolhido um dos lados.

Entrei num incontido ataque de pânico. Procurei imediatamente uma zona de consenso, um espaço neutro onde todos pudessem respirar em paz.

Foi então que, num impulso que hoje considero responsável por uma parte significativa dos meus cabelos brancos, tentei refugiar-me no campo místico, espiritual e transcendental.

— Calma, meus amigos! Graças ao Criador estamos todos aqui com saúde de ferro a comer sossegados, na divina paz do Senhor.

Erro. Erro crasso. Monumental. Um daqueles erros que, em determinadas regiões do país, podem justificar uma imediata comissão parlamentar de inquérito.

A sogra da minha prima, praticante fervorosa de uma corrente que mistura conhecimentos ocultos, exorcismos e outras formas de comunicação com o além, levantou-se de um salto, como se tivesse acabado de receber uma revelação mediúnica, e disparou:

— Graças ao Criador?!

Disse aquilo como se eu tivesse acabado de negar a existência do oxigénio.

— Estás a ignorar completamente a frequência vibracional dos cristais que te pus debaixo da almofada para não ressonares tanto e a influência do alinhamento direto da Lua entre a Terra e o Sol!

Fiquei sem saber o que responder. Talvez porque, naquele momento, sentisse a minha cabeça precisamente na Lua.

Comecei então a suspeitar de que o problema não era aquilo que eu dizia. Era o simples facto de eu dizer qualquer coisa.

Percebi a terrível verdade: quando a paixão assume o comando, as palavras deixam de ter o significado original e passam a adquirir aquela aceção especial que o interlocutor decidiu atribuir-lhes cinco segundos antes.

Se digo:

— Hoje está um dia bonito.

Um militante pode interpretar aquilo como uma declaração de apoio ao Governo.

Um devoto pode entender que estou a questionar a ordem natural do universo. E um adepto de futebol pode concluir que estou a fazer uma provocação sobre as cores do equipamento do clube dele.

Até um simples comentário meteorológico pode transformar-se numa crise institucional.

E se me atrevo a dizer:

— Acho que o árbitro esteve bem.

Nesse momento já não estou numa refeição, mas numa espécie de Nuremberga doméstica, com batatas fritas pelos ares e testemunhas dispostas a provar que eu, desde pequeno, sempre manifestei tendências de contestação à arbitragem.

Foi então que estabeleci uma regra de ouro.

Em jantares, ajuntamentos, casamentos, batizados, velórios, viagens de táxi e outras situações em que a fuga possa ser interpretada como falta de educação, as minhas conversas passaram a restringir-se a temas absolutamente neutros.

O tempo de cozedura perfeito de um ovo no micro-ondas. A comida húmida e os snacks para o gato. O milho-miúdo sem glúten e a alpista do periquito. A vida sexual das minhocas — desde que ninguém saiba em quem votam, ou a influência da cabidela de fraca no desenvolvimento da humanidade.

E, quando tudo falha, recorro ao silêncio contemplativo perante a forma como o ar dos mosteiros aquece o canto gregoriano.

Tenho conseguido manter esta estratégia com resultados razoáveis.

Ainda assim, permaneço vigilante.

Porque descobri que, neste país, não existe verdadeiramente nenhum assunto neutro.

Basta alguém dizer:

— Eu faço a cabidela de outra maneira.

E pronto.

Está instalada uma guerra civil. A pessoa que usa vinagre contra a pessoa que usa sangue. O tacho de barro contra o tacho de alumínio e em cinco minutos já alguém está a dizer: “o que vocês querem são tachos”.

E lá voltamos nós à política, irritados a querer processar quem ousou afirmar tal coisa.

Por isso, hoje, perante uma mesa cheia de desconhecidos, faço aquilo que qualquer pessoa prudente faria para preservar a paz social:

 Sorrio. Aceno com a cabeça. Como. E, sobretudo, evito emitir opiniões sobre qualquer coisa que tenha mais de três centímetros de diâmetro.

Se alguém pergunta:

— Em quem votaste?

Respondo imediatamente:

— Nas galinhas.

É a única resposta que ainda me parece consensual. Põem ovos e não fazem conferências de imprensa para explicar porquê e dão uma boa cabidela.

E, por segurança, não esclareço quais. Aprendi que, neste país, até escolher uma galinha pode ser uma tomada de posição.

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