Que plantas poderão fazer parte da alimentação europeia à medida que o continente enfrenta temperaturas mais elevadas e períodos de seca mais exigentes? Na Luz de Tavira, no sotavento algarvio, um jardim botânico procura contribuir para essa reflexão através da observação direta de centenas de plantas alimentares provenientes de diferentes regiões do mundo.
No Orchard of Flavours – Pomar dos Sabores, mangas crescem ao lado de longans, amoras, jujubas, bananas ‘Blue Java’, ingas, frutos de manteiga de amendoim e muitas outras espécies e variedades adaptadas a climas subtropicais e mediterrânicos.

Grande parte das árvores percorreu milhares de quilómetros antes de chegar ao Algarve, incluindo mangas dos Himalaias, ingas originários da Amazónia e longans do Sudeste Asiático. O projeto lembra ainda que as árvores de fruto atualmente cultivadas resultam de milhares de anos de seleção e intervenção humana.
Fundado em 2019, o jardim botânico ocupa atualmente 1,8 hectares e reúne cerca de mil plantas, correspondentes a mais de 500 tipos, entre espécies, cultivares e variedades, e mais de 300 espécies botânicas.
Mais de 500 tipos de plantas sob observação no Algarve
O objetivo passa por acompanhar a resposta das plantas às condições mediterrânicas do Algarve, caracterizadas por verões quentes e secos, forte exposição solar, solos alcalinos, vento, disponibilidade limitada de água e episódios ocasionais de frio durante o inverno.
As observações podem abranger o estabelecimento e crescimento das árvores, a reação ao calor, vento e geada, as necessidades de rega, a floração, polinização e frutificação, assim como eventuais problemas associados a pragas e doenças.

“Quis transformar a emergência climática numa ação prática. Não podemos controlar todas as mudanças que aí vêm, mas podemos explorar possibilidades, partilhar o que aprendemos e ajudar as pessoas a fazer escolhas mais informadas”, afirma Miguel Cotton, fundador e diretor voluntário do projeto.
O Pomar dos Sabores salienta, contudo, que estas observações constituem conhecimento prático em desenvolvimento e não significam que tenham sido identificadas novas culturas comerciais para a agricultura portuguesa. O jardim também não considera que os seus resultados possam ser automaticamente reproduzidos noutras explorações ou substituir investigação científica controlada.
Bananas, ingas e frutos pouco conhecidos já produzem no jardim
Várias plantas já frutificaram durante anos consecutivos sem proteção durante o inverno, mostrando capacidade para viver e produzir naquele local costeiro do Algarve e nas condições específicas existentes no jardim.

Entre os exemplos encontram-se a cereja das Antilhas (Muntingia calabura), o fruto de manteiga de amendoim (Bunchosia glandulifera), a jujubeira (Ziziphus jujuba), o inga (Inga edulis), diferentes goiabeiras, o argan (Argania spinosa) e várias espécies de Eugenia.
O sapote-verde (Pouteria viridis) e o jambolão (Syzygium cumini) produziram frutos pela primeira vez no terceiro ano após a plantação.

Também várias amoreiras apresentam produção, entre as quais a amoreira dos Himalaias (Morus macroura). Nas bananeiras, já produziram os cultivares ‘Blue Java’, ‘Dajiao’ e ‘Chini Champa’. Plantas de folhas comestíveis, como o hibisco-azedo (Hibiscus acetosella), a árvore-do-caril (Murraya koenigii) e a moringa (Moringa oleifera), também se estabeleceram no jardim.
A divulgação destas observações procura contribuir para a criação de um registo público sobre o comportamento de plantas comestíveis menos conhecidas nas condições portuguesas.
“Cemitério de Plantas” também documenta os fracassos
Nem todas as espécies conseguem adaptar-se. Por esse motivo, o projeto decidiu documentar não apenas os casos bem-sucedidos, mas também as plantas que morreram.
O denominado “Cemitério de Plantas” regista os exemplares perdidos e, sempre que possível, as respetivas causas, que podem passar por danos provocados pela geada, características inadequadas do solo ou excesso de água. A informação é integrada numa base de dados pública que inclui também nomes científicos e comuns, origens, necessidades de água, resistência ao frio e observações realizadas no terreno.
Para produtores e jardineiros confrontados com condições climáticas em mudança, a identificação das espécies que não se adaptam pode assumir tanta relevância como o conhecimento daquelas que apresentam bons resultados.

“Não olhamos apenas para saber se uma árvore sobrevive. Observamos como se estabelece, quanta água precisa, como responde ao nosso solo e clima, e se consegue, com o tempo, produzir alimento”, explica Lucas Oliveira, engenheiro agrónomo e porta-voz em língua portuguesa.
A equipa sublinha que uma árvore pode sobreviver sem crescer de forma satisfatória ou desenvolver-se sem chegar a florir e produzir frutos, e que o comportamento de cada espécie pode variar consoante o solo, o microclima e o sistema de rega.
Jardim botânico aposta na formação e participação da comunidade
Criado em janeiro de 2019, o Orchard of Flavours – Pomar dos Sabores é uma organização sem fins lucrativos e encontra-se certificado pela Botanic Gardens Conservation International (BGCI) desde novembro de 2022.
O projeto partilha o conhecimento acumulado através da sua base de dados pública, conteúdos online, consultorias, atividades educativas e manhãs semanais de voluntariado.

A Food Tree Academy recebeu, durante os seus primeiros quatro anos, cerca de 200 participantes, entre proprietários rurais, jardineiros e responsáveis por pomares ou projetos regenerativos, incluindo participantes de Portugal e de outras regiões de clima mediterrânico.
Todas as quartas-feiras, o jardim recebe habitualmente entre seis e dez voluntários numa manhã que combina trabalho prático, formação informal, troca de experiências e participação comunitária.
O projeto mantém, assim, uma coleção viva orientada para uma pergunta que permanece em aberto: “O que poderá crescer no Algarve do futuro?”.
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