Juntar dinheiro para comprar casa tornou-se um desafio cada vez maior em muitos países, à medida que os preços da habitação se afastam dos rendimentos. Uma análise da BestBrokers, plataforma especializada na análise e comparação de corretoras e na produção de estudos sobre mercados e finanças, procurou medir precisamente essa diferença. O estudo, que abrangeu 130 países, calculou quantos meses de rendimento bruto seriam necessários para reunir uma entrada equivalente a 20% do preço de uma habitação média. Em Portugal, o resultado aponta para 30 meses de salário, ou seja, dois anos e meio de rendimento bruto, colocando o país numa posição menos favorável do que vários outros mercados europeus.
Comprar casa em Portugal exige cada vez mais esforço financeiro
O resultado português ganha particular relevância num momento em que o preço da habitação continua a aumentar de forma expressiva. Segundo o Eurostat, no primeiro trimestre de 2026 os preços das casas em Portugal estavam 17,8% acima dos registados no mesmo período de 2025, a maior subida entre os países da União Europeia com dados disponíveis.
Os números nacionais apontam na mesma direção. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), o Índice de Preços da Habitação aumentou 17,6% em 2025, depois de uma subida de 9,1% em 2024, confirmando a forte valorização que continua a marcar o mercado imobiliário português.
É neste contexto que a análise da BestBrokers permite perceber melhor o esforço teórico necessário para dar o primeiro passo na compra de uma casa. Embora não represente o tempo real que uma família demoraria a poupar esse dinheiro, o indicador permite comparar a relação entre os salários e os preços da habitação em Portugal com a realidade de outros países.
Em Portugal são precisos 30 meses de salário
Para chegar aos 30 meses, a BestBrokers considera, no caso português, um rendimento bruto médio mensal de 2.157 euros e um preço estimado de 325.133 euros para uma habitação de 108 metros quadrados. Uma entrada equivalente a 20% desse valor corresponderia a cerca de 65.027 euros.
Dividindo esse montante pelo rendimento bruto mensal utilizado no estudo, seriam necessários cerca de 30 meses de salário para atingir o valor da entrada. Em termos simples, equivaleria a destinar todo o rendimento bruto recebido durante dois anos e meio exclusivamente a esse objetivo.
O cálculo é, contudo, puramente teórico. Não são descontados impostos, contribuições sociais nem despesas como alimentação, renda, prestações, transportes, energia ou outros encargos familiares. Na prática, uma pessoa ou família que consiga poupar apenas uma parte do rendimento mensal demoraria necessariamente muito mais tempo a reunir os cerca de 65 mil euros.
Por isso, os 30 meses não devem ser interpretados como uma estimativa do tempo efetivamente necessário para juntar dinheiro para uma casa. O indicador funciona sobretudo como uma forma de medir a distância entre o nível dos rendimentos e o preço da habitação em cada país.
Entrada de 20% não é obrigatória em Portugal
Há ainda uma diferença importante entre a metodologia utilizada no estudo e as regras aplicáveis ao crédito à habitação em Portugal. Os 20% são apenas o valor de referência escolhido pela BestBrokers para permitir uma comparação igual entre os 130 países e não representam uma entrada obrigatória para todos os compradores portugueses.
O Banco de Portugal recomenda, no regime geral, que os créditos destinados à aquisição, construção ou realização de obras em habitação própria e permanente não apresentem um rácio loan-to-value (LTV) superior a 90%.
A concessão do empréstimo depende, contudo, da avaliação feita pela instituição de crédito, incluindo a situação financeira do cliente e as características da operação.
Assim, a análise não pretende indicar qual deve ser a entrada necessária para comprar casa em Portugal. Procura antes responder à mesma questão em todos os países: quantos meses de rendimento bruto seriam necessários para reunir um valor correspondente a 20% do preço estimado de uma habitação média?
Comprar casa noutros países revela diferenças curiosas
Como termo de comparação, Espanha apresenta valores muito próximos dos portugueses no montante considerado para a entrada de uma casa. A BestBrokers estima uma entrada de cerca de 65.047 euros, praticamente igual aos 65.027 euros calculados para Portugal. No entanto, devido ao rendimento bruto mensal mais elevado considerado no estudo, de 2.675 euros, seriam necessários 24 meses de salário, contra os 30 meses em Portugal.
Em França, apesar de a entrada estimada ser bastante superior, rondando os 87.409 euros, o rendimento bruto mensal considerado também é mais elevado, de 3.506 euros. Assim, seriam necessários 25 meses de rendimento bruto para reunir os 20%, menos cinco meses do que em Portugal, mostrando como rendimentos superiores podem compensar parcialmente preços de habitação mais elevados.
Fora da Europa, o Burundi apresenta o caso mais extremo entre os 130 países analisados. Com uma entrada estimada em 44.888 euros e um rendimento bruto médio mensal de pouco mais de 17 euros, seriam necessários 2.595 meses de rendimento, mais de 216 anos, para atingir aquele montante. Os próprios autores alertam, contudo, que estes valores extremos devem ser interpretados com cautela, devido ao peso da economia informal e às limitações dos dados disponíveis em alguns mercados.
Comprar casa sem crédito aumenta ainda mais o esforço
A BestBrokers realizou ainda um segundo exercício para perceber quantos anos de rendimento bruto seriam necessários para pagar integralmente uma habitação sem recorrer a financiamento. Tal como no cálculo da entrada, o estudo compara o preço estimado da casa com o rendimento bruto médio utilizado para cada país.
Também neste caso os resultados não correspondem ao tempo real que uma pessoa demoraria a poupar, uma vez que pressupõem que 100% do rendimento bruto poderia ser utilizado na compra do imóvel. O objetivo é, novamente, medir a relação entre os rendimentos e os preços da habitação e permitir uma comparação entre diferentes mercados.
No caso português, é precisamente essa distância que torna os 30 meses de rendimento bruto necessários para uma entrada teórica de 20% particularmente relevantes. O número não significa que um comprador consiga reunir o dinheiro em dois anos e meio, mas mostra que esse montante equivale à totalidade do rendimento bruto recebido durante esse período, num país onde os dados oficiais indicam que o preço das casas continua a crescer a um ritmo elevado.
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